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publicado dia 27 de janeiro de 2021

O que o esporte ensina? Reflexões sobre educação e política

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*Por Wecisley Ribeiro. 

Em um jogo de futebol, duas equipes se enfrentam recorrendo a suas respectivas capacidades físicas, habilidades técnicas e competências cognitivas. O motor primário deste fenômeno vem da agressividade, herança indispensável à adaptação biológica da espécie humana. Sob uma forma socialmente aceitável este impulso de luta se expressa na competição.

Para obter êxito no embate, importa cooperar com colegas de equipe. Produzir sinergia e entrosamento. O exercício cotidiano destas características imprescindíveis a um time cria afinidade e coesão social. Sob a liderança de um treinador ou treinadora bem formados, do ponto de vista técnico e ético, pode-se germinar amizade e afeição.

A foto de capa é do projeto Ginga.FC, que investiga expressões futebolísticas pelo Brasil. A fotografia foi feita em 2018.

Mesmo as modalidades chamadas individuais resultam de aprendizados coletivos. No Jiu-jitsu, por exemplo, o atleta representa a equipe a que pertence. As artes marciais, por sinal, ilustram com mais clareza outra propriedade central do fenômeno esportivo, que são as regras compartilhadas pelos combatentes. Elas operam como elemento pacificador, garantindo quase sempre a preservação da integridade física dos atletas; são responsáveis pela distinção conceitual entre briga e luta, inimizade e rivalidade, guerra e paz.

No âmbito da experiência prática, entretanto, as interações esportivas não se comportam sempre conforme a teoria. A relação entre competição e cooperação, por exemplo, é sempre dinâmica, relacional e contextual. Em situações de treino, pode haver tantas rivalidades internas quanto afinidades. Isso não quer dizer que o grupo está desunido, condição que depende das relações entre ele e as demais equipes com as quais costuma disputar.

Coesão social e prática de esporte

Contudo, o que está dito até aqui refere-se à lógica do jogo. Não há, contudo, garantias de que todos os esportistas atuem em conformidade com ela. Sem dúvida, testemunhamos na esfera profissional e amadora a vigência regular de equívocos. Todos decorrentes da sobrevalorização dos talentos individuais; atitude que institui hierarquias indesejadas e mesmo cisões na equipe. Isso compromete a união  em campo e a amizade, fora dele.

Tal como ocorre na Economia, os princípios de funcionamento do Esporte não operam espontaneamente, por meio de uma mão invisível. Eles precisam do fundamento ético que resulta da agência humana. É necessário cultivar  intencionalidade educativa, e papel do educador lançar luz sobre os nexos coletivos que podem germinar quando diferenças individuais são tratadas em termos complementares. O técnico que, ao contrário disso, distribui de modo desigual a admiração pelos componentes de seu time tende a ser duplamente derrotado – tanto na tarefa de instaurar um ambiente fraterno de treinamento, quanto nos embates com adversários.

De fato, um estudo recente da revista Nature¹ registrou forte correlação entre coesão social e êxito esportivo. Quando equipes se equivalem em habilidades técnicas individuais, a robustez da coesão social determina a vitória. E mesmo equipes tecnicamente inferiores, quando mais coesas, elevam suas chances de superar rivais mais habilidosos.

Mas o que se passa em campo é, com frequência, diferente do que ocorre nas arquibancadas. A coesão social de uma equipe decorre de experiências compartilhadas cuja característica central é a intensidade afetiva. Ela resulta, pois, da produção substantiva de afinidades gestadas por objetivos comuns, cooperação, reconhecimento do caráter complementar de diferenças pessoais que operam em sinergia. Entre as torcidas, por outro lado, embora possa existir trabalho coletivo, tal não é condição necessária.

O antropólogo Gregory Bateson² descreveu duas condições de possibilidade para manutenção da coesão de um grupo social: a produção ativa de rituais internos coletivos; e o advento de um adversário ou inimigo externo. Entre equipes esportivas, rituais internos e confrontos com rivais são constantes; entre torcidas, há constância apenas do segundo elemento. No primeiro caso, observa-se ritos dos treinos (os quais, ambivalentes, geram a um só tempo rivalidade e coesão, cabendo ao treinador acentuar a segunda) e encontro frequente com adversários, nos jogos oficiais; no segundo, músicas e coreografias, ritos de torcida, não são criados com a mesma regularidade.

Rituais internos produzem cooperação e afinidades; embates com adversários levam à cooperação compulsória, para fins pragmáticos de vitória. Quando em ausência de afeições internas genuínas, os membros do grupo se forçam mutuamente ao exercício permanente de provas de fidelidade. E estas se realizam no embate violento com outros grupos rivais. 

Esportes emulam práticas políticas e de convivência

Há perfeita relação de homologia entre esporte e política. Trata-se de dois construtos humanos que substituem a guerra. Entre a guerra violenta e a disputa política civilizada, com respeito às regras do jogo democrático, não há oposição, mas um contínuo evolutivo, com gradientes de sublimação da agressividade. O esporte se encontra a meio caminho entre os dois pólos. 

Mais próximos da guerra, se encontram as lutas, as artes marciais, os esportes de invasão, o atletismo, ao passo que as modalidades desprovidas de contato físico, como o tênis ou o golfe, se aproximam da pacificação que se espera da democracia. Não por acaso, o xadrez, o mais sublimado dos esportes, constitui uma dramatização simbólica da política. Na política, como no esporte, as atitudes das pessoas em posição de liderança são largamente responsáveis pela animosidade ou amabilidade da vida social.

Os antigos gregos tinham consciência desta dinâmica de continuidade. Entre o Pancrácio (combate grego que originou a luta olímpica), passando pelo lançamento de dardo e disco, o salto em distâncias ou em altura e a corrida, até o teatro e a competição de argumentos filosóficos e políticos, na Ágora, não se concebia uma diferença de natureza, mas apenas de grau de pacificação. Com efeito, nenhum dramaturgo redige um roteiro desprovido de conflito dramático, do que as personas, o símbolo do teatro objetivado no par de máscaras da tristeza e da alegria, oferecem uma imagem. Por seu turno, o debate constitui o estado mais pacificado de tratamento dos conflitos de interesse.

Eis porque o esporte nos ajuda a entender o Brasil de hoje. A violência na política é sintoma da formação insuficiente do autocontrole das emoções. Quando, por volta dos cinco anos de idade, o ser humano dá mostras de frustração com a derrota em um jogo, é hora dos pais e educadores lhes sugerirem que esta é uma experiência inevitável na vida. 

E também uma bela lição formadora da humildade – sem a qual a inteligência, nos diversificados setores da existência, não pode se desenvolver. Perder na casa do adversário provoca um ensinamento extraordinário, formador da aceitação pacífica e respeitosa de um argumento contrário, no campo do debate de ideias. Estas reflexões talvez contribuam para tornar menos opaca a correlação estatística que parece existir entre o declínio da prática coletiva de esportes e a redução do espaço público das cidades brasileiras, nas últimas décadas, de um lado, e o avanço da intolerância à alteridade, de outro.

Notas
¹ Revista científica que publica artigos e produção científica de diversos países.

² Antropólogo, linguista e semiólogo, Bateson fez importantes contribuições do estudo sobre o caráter circular e complexo  dos processos comunicativos.

Sobre o autor

Wecisley Ribeiro é antropólogo, educador físico e doutor em antropologia social pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro. Também é professor adjunto da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Wecisley conduziu um projeto de extensão universitária junto com Jeferson José Moebus Retondar sobre a correlação entre direito ao lazer e direito à cidade. Você pode ler o artigo nos materiais da plataforma Educação e Território.

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