Perfil no Facebook Perfil no Instagram Perfil no Twitter Perfil no Youtube

publicado dia 17 de outubro de 2022

Crianças desbravam ruas de São Paulo com projeto Motoca na Praça

por

Logo do prêmio territóriosNa contramão das expectativas, de vez em quando é possível se deparar com uma legião de crianças pedalando pelas ruas e calçadas do entorno da Praça da República, no centro de São Paulo (SP), em triciclos coloridos.

Isso porque, há três anos, a EMEI Armando de Arruda Pereira coloca o bloco na rua e leva as crianças da Educação Infantil a desbravarem a região, reivindicando o seu lugar no direito à cidade e ao brincar, com o projeto Motoca na Praça. 

Criada com a premissa de vincular os alunos ao território e o bairro à escola, a ação é uma das finalistas da 6ª edição do Prêmio Territórios do Instituto Tomie Ohtake, realizado em parceria técnica com o Cidade Escola Aprendiz e o Centro de Referências em Educação Integral.

Leia + Conheça as 10 indicadas ao Prêmio Territórios Tomie Ohtake 

Idealizadora do projeto, a professora Lívia Arruda explica que o Motoca na Praça nasceu da vontade de aproximar as crianças da praça e criar um vínculo positivo entre o território e a comunidade. “A EMEI é toda aberta, então, quem está na praça vê quem está dentro [da EMEI] e quem está dentro vê quem está na praça. Ao mesmo tempo, a escola era muito pouco vista pela comunidade”, explica a professora.

Motoca na praça “Por se tratar de uma praça extremamente urbana, com vulnerabilidade social e muitas pessoas em situação de rua, é um lugar não visto como ideal para brincar, né?”, reflete Livia, lembrando que a região era conhecida pelo risco de furtos e, por isso, marcada pelo medo e a desconfiança. “E a EMEI, de alguma forma, também tinha esse medo. Daí surgiu a ideia de se aproximar à praça, criar um vínculo positivo e também marcar presença, no sentido de transformar esse território”, ressalta a educadora.

O desejo de ocupar e humanizar a praça por meio de atividades que promovessem interação entre as cerca de 300 crianças com a região já se deu de diferentes formatos e propostas pedagógicas, seja com exposição do lado de fora da escola, contação de histórias, brincadeiras e outras atividades que antecederam o projeto Motocas na Praça.

“Percebemos o impacto positivo que essas ações traziam pra praça, envolvendo as crianças, o quanto brincar ali humanizava aquele espaço e fazia as pessoas pensarem sobre o direito à cidade, sobre o direito de brincar naquele ambiente. O local pode se transformar para acolher as crianças, em vez das crianças não ocuparem esses territórios”, conta Lívia.

Motocas na Praça: autonomia para brincar e explorar

Realizado inicialmente de forma esporádica, o Motoca na Praça ganhou notoriedade em meio à retomada das atividades após dois anos de pandemia. Assim, os alunos passaram a ocupar cada vez mais espaços pela região, estabelecendo vínculos através de exercícios de observação, pertencimento e fortalecimento do olhar para cada esquina, rua e cenário que se tornou objeto de estudo da atividade fora dos muros da escola.

“Temos muitas crianças filhas de imigrantes, principalmente da África e da América do Sul, além dos migrantes do Nordeste. Também é uma região que abriga ocupações ou moradias temporárias, então é um local de pouco pertencimento para essas famílias, não existe uma relação muito afetiva. Por isso é importante que as crianças se sintam pertencentes ao bairro, ao entorno”, reflete Lívia.

Para a arquiteta e urbanista Carol Tonetti, diretora do Núcleo do Núcleo de Cultura e Participação do Instituto Tomie Ohtake, e uma das selecionadoras do Prêmio Territórios, o projeto Motocas na Praça visibiliza os desafios que envolvem a presença das crianças nesses espaços. “O que o Motoca na Praça consegue fazer é quase uma intervenção artística”, define ela, analisando que, ao ocupar o espaço urbano, as pequenas motocas reivindicam um território democrático não apenas para elas, mas para todos.

Motoca na praça

“A beleza que é você ver um conjunto de crianças com a motoquinha chegando, expressada na força dessa coletividade. Eles de fato conseguem parar nosso cotidiano e mudar a perspectiva do nosso olhar”, destaca.

A urbanista observa que, embora a EMEI esteja localizada no centro da cidade, com uma rede de infraestrutura muito privilegiada, é preciso entender quem é a população que vive e frequenta a região. “Apesar de toda a infraestrutura consolidada, equipamentos públicos, museus estarem ali, eles parecem um tanto inacessíveis. Quando vejo as crianças passando naqueles espaços é nesse lugar que o projeto, para além do que ele proporciona para as crianças, têm um benefício enorme para a cidade e para a nossa coletividade como cidadãos do espaço urbano”, explica.

Diante do panorama de segregação urbana presente na capital paulista, a iniciativa acentua a importância da educação para além dos muros da escola. “O projeto expande a ideia de território educativo e implica a toda coletividade que usa o centro da cidade a entender que nós também somos responsáveis pelo cuidado e atenção dessas crianças”, defende Carol Tonetti.

Lívia, que há 11 anos leciona na EMEI, sublinha a contribuição do Motoca na Praça para a compreensão do brincar aliada ao exercício da autonomia, que permite às crianças experimentar a cidade, tornando-as sujeito ativo de seus direitos.

“Estar na motoca possibilita uma liberdade diferente, por conta das brincadeiras e passeios, a responsabilidade de gerir o brinquedo e todos os processos que envolvem a atividade. Para além de qualquer proposta pedagógica, a ideia é viver o território, sair para brincar, olhar, descobrir a vivência na cidade”, conclui a professora.

Conheça as demais experiências vencedoras do Prêmio Territórios: 

Escola de Armação dos Búzios (RJ) resgata a cultura quilombola do território

Para além dos muros da escola, EMEF Professor Waldir Garcia transforma bairro em território educativo

Com solidariedade educativa, CIEJA Clóvis Caitano reforça elos e promove reinserção profissional

Escola rural em assentamento luta para garantir direito à educação de suas crianças

Em Joinville (SC), estudantes resgatam as trajetórias de mulheres pretas na História

Cine EducAlimentação propõe enfrentamento à insegurança alimentar no Colégio Estadual Mário do Carmo Lima

“Que planta é essa, professora?” Escola pública promove etnobotânica e decolonialidade no ensino das Ciências

Resgate de identidade cultural caiçara transforma vila de pescadores em território educativo em SC

Professora promove o letramento a partir da etnometeorologia em Paraty (RJ)

Como pensar uma cidade para as crianças?

As plataformas da Cidade Escola Aprendiz utilizam cookies e tecnologias semelhantes, como explicado em nossa Política de Privacidade, para recomendar conteúdo e publicidade.
Ao navegar por nosso conteúdo, o usuário aceita tais condições.