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publicado dia 6 de outubro de 2026

Como conversar (sem julgamentos) com adolescentes sobre Cidadania Digital e uso crítico das redes sociais?

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒️Resumo: Como ensinar crianças e adolescentes sobre o uso crítico e consciente da Internet, um princípio da Cidadania Digital? Confira recomendações de especialistas e a experiência de projetos ligados ao território que colocam esse trabalho em prática.

Conversar com crianças e adolescentes sobre o uso que fazem da Internet é desafiador. É um território por onde eles circulam e atuam, na maior parte do tempo, longe dos olhos de adultos, cativados pelos discursos engajadores dos influenciadores, sujeitos às armadilhas viciantes do design e do estreitamento da visão de mundo dos algoritmos.

Nesse cenário, os avisos de adultos sobre os perigos do ambiente digital costumam soar inócuos e suas preocupações, exageradas. 

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Outras vezes, esse discurso resvala na culpabilização das crianças e adolescentes por “não largarem do celular” e na desvalorização do que interessa a eles nas redes sociais e nos jogos online. 

Então, por onde começar para ensiná-los sobre Cidadania Digital: a tarefa de se proteger e, ao mesmo tempo, atuar com responsabilidade no mundo virtual?

Cidadania Digital: abrir o diálogo, sem julgamentos 

Incumbência das famílias, escolas e de todos os agentes de um Território Educativo que atuam com as infâncias e adolescências, Rodrigo Nejm, especialista em Educação Digital do Instituto Alana, recomenda preparar-se para o diálogo deixando o julgamento moral de lado. “Listar o que eles não podem fazer ou falar dos perigos em abstrato, não conversa com crianças e adolescentes”, diz Rodrigo.

O especialista orienta por começar reconhecendo o valor que o mundo digital tem para eles. “Menosprezar um jogo, um vídeo, um influenciador que eles gostam é uma visão adultocêntrica que bloqueia a conversa”, aponta.

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A partir da curiosidade em entender o que interessa a eles na Internet, e o uso que fazem dela, é possível propor atividades concretas, em que as reflexões e dúvidas sobre os perigos e potencialidades do ambiente digital possam surgir naturalmente.

A partir da escuta, é possível propor atividades concretas que gerem reflexão e dúvidas sobre os perigos e potências do ambiente digital

Rodrigo sugere, por exemplo, criar um aplicativo, treinar uma inteligência artificial para criar um produto, fazer de conta que é o dono de uma grande empresa de tecnologia que precisa tomar decisões sobre políticas de privacidade, ou criar um jogo ou enquetes para pesquisar como os pais e os avós usam a Internet. 

“Permite ter um insumo muito concreto sobre o uso que cada um faz da internet, os influenciadores que gostam, as páginas que seguem”, indica.

O objetivo é desvelar a eles os mecanismos que operam por trás da interface dos aplicativos. “A experimentação permite reconhecer os padrões de design manipulativo, reconhecer as técnicas de persuasão que os influenciadores usam, mas também como as próprias plataformas digitais são milimetricamente programadas para capturar a nossa atenção”, afirma Rodrigo.

Guilherme Alves, gerente de projetos na SaferNet Brasil, reforça que elucidar a forma de atuação desses mecanismos fortalece as crianças e adolescentes. “Quando conseguimos explicar o conceito e tirar a lógica mágica da tecnologia, conseguimos colocar uma semente de criticidade que pode se intensificar e amadurecer ao longo do tempo”, diz.

Com isso, ganha espaço o potencial de retomar o que há de melhor no ambiente digital. “Ao longo desse processo de intensificação da cultura digital, perdemos de vista muito do que era positivo, como a criatividade, o acesso a informações de qualidade e comunicação facilitada com pessoas de vários lugares e culturas. Resgatar isso é muito importante”, afirma Guilherme.

A Cidadania Digital em cada etapa de vida

A Educação para a Cidadania Digital deve ter início assim que as crianças começam a acessar as telas, o que não é recomendado que aconteça antes dos 2 anos de idade e, por no máximo um hora por dia e com supervisão de um adulto, entre os 2 e 5 anos, de acordo com a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Com os pequenos, Guilherme recomenda trabalhar de maneira lúdica, com brincadeiras e contação de histórias, de forma a explicar os riscos de conversar com desconhecidos e construir o hábito de dialogar sobre o uso que faz da internet. “Isso estreita a rede de proteção ao redor da criança”, afirma.

A Educaçã0 para a Cidadania Digital deve começar assim que as crianças começam a acessar as telas

No fim da infância e início da adolescência, o foco passa à conscientização sobre o tempo de tela, o comportamento em relação às outras pessoas, como cyberbullying e divulgação de fotos íntimas, e o incentivo à criação: “É estimular a olhar a internet como algo de que podem participar, com criação, cocriação, remixagem, curadoria, entre outros”, indica o especialista.

Na adolescência, entram em jogo os algoritmos e vieses. “Habilidades de computação técnicas, discutir algoritmos, vieses, como pode reforçar preconceitos e dar respostas a problemas sociais. E entender as soluções técnicas que são colocadas como parte da nossa sociedade. Temos que abandonar o uso instrumental e passivo e avançar no uso mais ético e participativo. Tem que ser preparados para incidir no contexto digitalizado”, diz Guilherme.

Conheça experiências de quem faz na prática

Na Escola Professora Maria do Carmo de Araújo Maia, em Campo Formoso (BA), a professora Ana Paula Lopes da Silva levou estudantes de 8º e 9º ano a discutir cyberbullying, fake news, inteligência artificial, misoginia, xenofobia e proteção de dados pessoais. 

A formação para a Cidadania Digital é tarefa de toda a sociedade – e isso envolve os agentes educativos do território 

A partir dos estudos, iniciados em 2024, as crianças produziram seus próprios vídeos e curtas-metragens sobre o assunto. Da iniciativa nasceu o projeto Cidadania Digital Itinerante, que leva esse material às redes sociais, outras escolas e à comunidade de Campo Formoso. O projeto foi um dos vencedores do Prêmio Cidadania Digital em Ação 2025.

Mas a formação para a Cidadania Digital é tarefa de toda a sociedade – e isso vai para além dos muros da escola e caminha de mãos dadas com outros agentes educativos do território. 

Por isso, a Viração – Educomunicação convidou jovens de Ferreira Gomes (AP), a identificarem problemas em seu território que gostariam de abordar, por meio do projeto Escola de Cidadania para Adolescentes (ECA).A cidade, banhada pelo rio Araguari e cercada por três usinas hidrelétricas, convive com apagões. Os adolescentes cartografaram afetivamente o território e produziram o curta-metragem Pisca-Pisca, sobre a falta de justiça climática na região.

E para incentivar a produção de comunicação feita por jovens, a Agência Jovem de Notícias, também da Viração, criou uma rede nacional descentralizada de comunicadores de 16 a 24 anos, selecionados por edital, que recebem mentoria especializada em fotojornalismo, podcast, vídeo e reportagem para produzir conteúdo sobre seus próprios territórios.

Já no Pará, o coletivo Manas Digitais, criado em 2018 a partir do encontro de quatro mães que já eram professoras na área de tecnologia, decidiu agir sobre outro problema: a queda no número de mulheres nos cursos de computação. 

O projeto de letramento digital com recorte de gênero, financiado por edital do CNPq, formou adolescentes de escolas públicas e jovens em universidades no Pará. Também deu origem a uma startup própria, hoje voltada à formação em inclusão digital para empresas, prefeituras e comunidades indígenas da região amazônica.

E no Rio de Janeiro, o projeto Nas Ondas da Maré, da Redes da Maré, oferece sete cursos de capacitação para o mercado de tecnologia a jovens de 17 a 24 anos da própria comunidade. Muitos deles, como o educador Natan Valladares, 21, são ex-alunos que hoje dão aula para a geração seguinte e criam suas próprias ferramentas digitais com base nos princípios de Cidadania Digital. 

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