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publicado dia 13 de agosto de 2026

A força da alimentação para os Territórios Educativos

Reportagem: | Edição: Tory Helena

🗒️ Resumo: Como a alimentação, em diálogo com a cultura local, fortalece os Territórios Educativos? Entenda como relacionar Alimentação, Cultura e Educação promove o desenvolvimento integral, fortalece a identidade e a memória do território e contribui para hábitos alimentares mais saudáveis. 

Alimentação é mais do que nutrição: para os Territórios Educativos, a comida promove desenvolvimento integral e conexão com a cultura e a memória do território. 

No entanto, para atingir todo o potencial, é fundamental que a comida ofertada seja adequada à cultura local e sintonizada com os saberes de suas comunidades. 

Alimentação envolve afetos, cultura e território

O que é Território Educativo 

Um Território Educativo é aquele que exerce um papel educador na vida de seus cidadãos e cidadãs. Nele, as diferentes políticas, espaços, tempos e atores se articulam e se conectam para garantir os direitos fundamentais da população e ampliar as oportunidades de aprendizagem ao longo da vida. Nesse contexto, a alimentação é encarada como algo além do valor nutricional, podendo desencadear momentos de aprendizagem e de conexão dos sujeitos com a cultura e a memória dos territórios. 

“Comida envolve cultura, afetos, cuidado, os múltiplos sentidos, a relação com o território e entre as pessoas”, diz Lígia Amparo da Silva Santos, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no campo da Antropologia da Alimentação. 

Ariela Doctors, do Instituto Comida e Cultura, explica que, no Brasil, a cultura alimentar é um território de disputa. 

“Existia um mito de que houve uma miscigenação da culinária portuguesa com a indígena e a africana. Mas não foi assim. As culturas indígenas e africanas foram apagadas ou apropriadas. Então pensar a alimentação de forma decolonial é poder decidir como quer comer, quais ingredientes priorizar e dar nome aos devidos contribuintes”, explica Ariela, que também integra o Conselho Consultivo do Programa Educação e Território. 

Perder a memória afetiva das receitas transmitidas pelas gerações, adverte a especialista, é também perder a identidade de uma comunidade. 

É o caso evidente de muitas comunidades indígenas, como a de Jera Guarani, que vive na Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo (SP).

A educadora Jera Guarani deu aula por 17 anos na Escola Estadual Indígena Guyra Pepo, localizada na Terra Indígena Tenondé Porã. Ao longo do tempo, ela viu transformações importantes na alimentação oferecida aos estudantes indígenas. 

Inicialmente, as refeições ofertadas eram padronizadas, sem considerar os hábitos, formas de pensar e de viver da população local. Para Jera, a introdução de achocolatados, bolachas e outros alimentos processados na merenda escolar não dialogava com o território. 

“A comida padronizada da escola tira a sabedoria da aldeia”, afirma Jera Guarani

O problema não é apenas nutricional. Na cultura Guarani, a carne é consumida apenas entre maio e julho, quando não é período de procriação dos animais. Cada vez que um bicho cai na armadilha, a família que caçou distribui a carne na comunidade. “A comida padronizada da escola tira a sabedoria da aldeia”, resume. 

Ao longo dos anos, ela viu os efeitos no próprio corpo e nos das crianças. “É uma luta combater esse paladar do açúcar, óleo e sal na aldeia”, afirma. 

Diante do cenário, há cerca de dez anos, professores indígenas e não indígenas passaram a se organizar coletivamente para pedir um olhar específico para a alimentação Guarani. A comunidade começou a trabalhar pedagogicamente o significado da própria comida, levando jovens a aldeias com áreas maiores para preparar os pratos Guarani.

Hoje, com almoços coletivos, mutirões de reflorestamento e o cultivo do que se come, Jera diz que a mudança é visível. “A vida de todo mundo está muito melhor. As pessoas ficam menos doentes, estão mais fortalecidas. E só conseguimos isso porque foi um trabalho coletivo”, afirma a educadora. 

Além disso, comer o milho plantado junto à casa de reza, respeitar a época certa de caça e partilhar o que se obtém faz parte de sua cultura. “Se como comida plantada na aldeia, estou fortalecendo minha mente, coração e espírito, não só o corpo físico”, diz Jerá.

Alimentação como meio para o desenvolvimento integral 

A experiência de Jera reforça a importância das políticas públicas alimentares dialogarem mais profundamente com a cultura local. 

“Quando se perde a memória afetiva das receitas que vinham das avós, por exemplo, perde-se a própria identidade”, aponta Ariela Doctors.

Mariana Santarelli, coordenadora do Observatório da Alimentação Escolar (ÓAÊ), lembra que o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) determina que ao menos parte dos recursos federais seja usada na compra da agricultura familiar, com prioridade para indígenas, quilombolas, mulheres, jovens e assentados. 

“O objetivo desse mecanismo é usar as compras públicas para promover o desenvolvimento local. Quando funciona, o cardápio é elaborado com o que se produz ali, referenciado na cultura alimentar daquele lugar. É esse instrumento que aproxima a comida da escola do território”, explica Mariana.

Desde a lei do PNAE, de 2009, as normas foram se aproximando de uma alimentação mais saudável, limitando a compra de processados e ultraprocessados a no máximo 10% dos recursos. Além disso, pelo menos 85% da verba para alimentação escolar deve contemplar alimentos in natura e minimamente processados. 

O que são alimentos ultraprocessados

Formulações industriais elaboradas com muitos ingredientes e submetidas a diversas etapas de processamento. Apresentam pouca ou nenhuma presença de alimentos in natura, sendo caracterizados, em geral, pelo alto teor de sal, gorduras, açúcares e pela adição de substâncias pouco utilizadas na culinária doméstica. Frequentemente incluem aditivos destinados a alterar cor, sabor, aroma ou textura, modificando suas características sensoriais. 

Fonte: Marco de Referência de Sistemas Alimentares e Clima para Políticas Públicas (Ministério do Desenvolvimento Social) 

Ainda assim, pesquisas do ÓAÊ encontraram presença significativa de biscoitos e sucos industrializados nas refeições e lanches servidos nas escolas. “Tem questões operacionais, de orçamento e de falta de mão de obra nas cozinhas, além da rejeição da própria comunidade escolar aos cardápios saudáveis. Daí a importância da Educação Alimentar e Nutricional”, pondera Mariana Santarelli.

Para as especialistas, os produtos industrializados avançam sobre a comida feita na panela tanto nas escolas quanto nos lares brasileiros. 

“Está se tornando mais barato, mais rápido. Substituir a comida do território por produtos de pacote ameaça a nossa saúde, os nossos conhecimentos e o nosso lugar de pertencimento no mundo. Quando se perde a memória afetiva das receitas que vinham das avós, por exemplo, perde-se a própria identidade”, aponta Ariela Doctors.

Rute Costa, do programa CulinAfro, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descreve essa disputa como desigual. “É um tempo em que os produtos ultraprocessados chegam nos territórios tradicionais com o poder da comunicação em massa, a sedução das embalagens, e o capital simbólico de comer um produto de pacote”, diz. 

“É uma luta desigual incentivar a criança a comer farinha torrada, beiju e açaí, enquanto as indústrias trazem produtos altamente sedutores e hiperpalatáveis para a infância”, complementa Rute, que também é Professora do Instituto de Alimentação e Nutrição e do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Saúde da UFRJ.

Para Rute Costa, falta a política pública de alimentação desenhar como a adequação cultural acontece na prática. 

“Isso fica a cargo de cada profissional no seu território. É uma nutricionista para centenas de escolas, em áreas de deslocamento longo, em que dificilmente consegue essa aproximação., e também falta formação”, afirma. 

Na sua experiência, o trabalho rende quando há debates coletivos: “Chamar as mulheres da comunidade, as escolas, promover encontro e estar disponível para ouvir, aprender, fazer de outras formas”, orienta Rute.

Ariela Doctors: “Justiça Climática está relacionada à acessibilidade da alimentação adequada”

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