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publicado dia 20 de setembro de 2021

Violência afeta saúde mental de 1/3 dos moradores do Complexo da Maré

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A pesquisa “Construindo Pontes”, realizada entre 2018 e 2020 nas 16 favelas que compõem o Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, investigou quais são os efeitos da violência armada sobre a saúde física e mental nas pessoas que vivem na região. O relatório completo, divulgado no último mês de agosto, apontou que 31% do total de 1.411 moradores entrevistados tiveram a saúde mental afetada.

A violência, de acordo com a pesquisa, tem efeitos e desdobramentos em todo o território. Em 2018 e 2019, as operações policias que aconteceram no Complexo causaram a suspensão das aulas por um total de 34 dias e o fechamento de unidades de saúde por 36 dias.

Eliana Silva, diretora da Redes da Maré, afirmou que a pesquisa foi importante para jogar luz sobre os diferentes impactos que a violência causa nos moradores.  Ela lembra que a população de favela vive historicamente sobre determinadas violações e violências e  “nunca conseguimos entender os efeitos”; exemplifica: “uma criança que cresce em uma favela e muitas vezes vivencia uma operação policial ou confrontos armados entre grupos e reconhece no seu cotidiano violências que não vemos em outras partes da cidade, sem dúvidas, isso precisa ser olhado por essa ótica”.

Eliana também destacou a ausência de direitos de moradores da comunidade, entre eles,  a segurança (“nunca foi um direito reconhecido para as populações de favelas e periferias”) e o cuidado com a saúde mental. Como elemento complicador, menciona a falta de políticas públicas que sejam revertidas em uma vida digna aos moradores. E, o resultado é um processo de adoecimento.

A questão da segurança pública foi um ponto bastante abordado pela pesquisa. Um dado impressionante apontou que 71% dos entrevistados vivem com medo de que alguém próximo seja atingido por arma de fogo, além de 44% dessas pessoas terem estado em meio a um tiroteio nos 12 meses antes da pesquisa. Outro ponto que chama a atenção é o fato de mais de 25,5% dos entrevistados terem alguém próximo que tenha sido assassinado ou ferido ao longo da vida.

Mais de 44% dos entrevistados já presenciaram algum tiroteio
Mais de 44% dos entrevistados já presenciaram algum tiroteio

Impactos na saúde mental

A pesquisa identificou que grande parte dos moradores da Maré vive permanentemente com medo: sofrer, testemunhar e temer atos violentos integram uma rotina angustiante. A maioria da população (63%) sente medo (sempre ou muitas vezes) de ser alvejada por uma arma de fogo na Maré. Em consequência, cerca de 1/3 da população adulta da Maré (31%) diz ter a saúde mental afetada pela violência e, quando já presenciaram algum ato de violência, a situação é ainda pior. Entre os que sofreram exposição direta à situações violentas, 44% acreditam que sua saúde mental foi prejudicada.

Os prejuízos mais comuns nesse âmbito, relatados pelos moradores das comunidades, foram episódios depressivos (26,6%) e ansiedade (25,5%). Das pessoas que estiveram em meio a tiroteios, 12% relatam pensamentos sobre suicídio e 30%, sobre morte. Elas também apresentaram sintomas físicos como dificuldade para dormir (44%), perda de apetite (33%), vontade de vomitar e mal-estar no estômago (28%) e calafrios ou indigestão (21,5%).

James Douglas Oliveira, que é morador da favela Rubens Vaz, destacou a importância de não apenas fazer um levantamento sobre o tema, mas também discutir abertamente a questão para que a pauta seja introduzida no cotidiano, o que pode estimular os moradores na busca por caminhos para avançar nos processos de cuidado e tratamento da saúde mental.

“Já vivi os dois polos da situação. Já fui diagnosticado com crise de ansiedade, tive sintomas de depressão profunda e tive a tentação de tentar o suicídio. Vivi um processo de reabilitação, fui buscar ajuda terapêutica e, de um ano para cá, estou vivendo um outro polo: estou colhendo o fruto do processo de autocuidado”.

Outro aspecto que merece ser observado é a importância da formação e manutenção de redes de apoio. Nesse quesito, os moradores da Maré se sentem bem acolhidos. Dos entrevistados, 80% disseram estar satisfeitos na relação com a família e 85% com as pessoas com quem moravam. Além disso, 82% disseram ter “um amigo de verdade” e 66% declararam ter estado com um amigo na última semana. A maioria da população (69%) afirmou estar satisfeita com o número e qualidade de suas amizades.

Violência afetou a saúde mental de 31% dos moradores da Favela da Maré
Violência afetou a saúde mental de 31% dos moradores da Favela da Maré

Arte e cultura como aliados

A oferta de oportunidades de lazer e cultura é um fator importante para promover o bem-estar e a superação do estresse cotidiano. A pesquisa “Construindo Pontes” identificou que 71% da população adulta da Maré conhecia ao menos um espaço de arte e cultura no território e 45% conhecia dois ou mais deles. Os lugares mais lembrados pelos entrevistados foram o Museu da Maré, a Vila Olímpica da Maré, a Lona Cultural e o Centro de Artes da Maré.

Conhecer, entretanto, não é frequentar. Para 75% dessas respostas, as pessoas, embora conhecessem os locais, não os tinham frequentado nos últimos três meses e, para 7% dos espaços citados, a frequência era menor que uma vez por mês. Assim, em apenas 18% das respostas, os moradores aproveitavam os equipamentos culturais que conheciam ao menos uma vez por mês ou com maior frequência.

Entre as atividades culturais realizadas fora de casa, ouvir música ao vivo, fotografar, dançar e ir ao cinema são as mais populares entre os mareenses. Fotografar foi a atividade citada como mais cotidiana e frequente, uma vez que parece ser um hábito cultural semanal ou diário de quase 25% das pessoas. Já ir ao cinema parece ser um hábito de cerca de 25% da população adulta da Maré; no entanto, apenas 3,2% informaram essa atividade como realizada semanal ou diariamente.

Paul Heritage, que é um dos líderes da pesquisa “Construindo Pontes”, também destacou a importância de atividades culturais: “A arte e a cultura são recursos que fazem bem a todos quando nos sentimos mal, ler um livro e ir ao cinema tira você de você mesmo. Não apenas na Maré, no Rio de Janeiro ou no Brasil, mas vivemos uma crise de saúde mental e todos nós precisamos de alguma ajuda”, finaliza.

Pesquisa construindo pontes, da Redes da maré, destacou a importância da arte e cultura para saúde mental
Pesquisa construindo pontes, da Redes da maré, destacou a importância da arte e cultura para saúde mental