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publicado dia 27 de outubro de 2021

Pesquisa aponta que 60% dos jovens brasileiros estão desacreditados com a política

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Uma pesquisa coordenada pelo Observatório da Juventude na Ibero-América, da Fundação SM, em parceria com pesquisadores de três universidades públicas do Rio de Janeiro (UFF, UniRio e UERJ), analisou as percepções e realidades dos jovens brasileiros. O foco esteve na participação sociopolítica, valores, autopercepção, perspectivas de futuro, cultura, religiosidade, migrações, diversidade, igualdade de gênero, além do impacto das tecnologias nas relações e nos hábitos de consumo. A análise da Pesquisa Juventudes no Brasil” contou com a participação de 1.740 jovens com idades entre 15 e 29 anos.

Em um total de 17 ítens analisados, família (99%), saúde (98%) e educação (98%) foram apontados como sendo os mais importantes de suas vidas. Na outra ponta, o relatório apontou para um grande desprestígio da política: está em 60% numa escala de importância pessoal.

Para Mariana Franco, gerente da Fundação SM, os dados ajudam a compreender as preocupações, os interesses, as motivações e as principais dificuldades que os jovens brasileiros enfrentam, para que possam ser criados entornos e ambientes propícios para o pleno desenvolvimento dessa fase.

Paulo Carrano, que é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e responsável pela coordenação da Pesquisa Juventudes no Brasil, destacou a importância de se ter uma percepção da realidade do jovem no presente, e não apenas no futuro. Ele também chamou a atenção para a diversidade existente em todo o território nacional.

“Para analisar as atitudes e os comportamentos da juventude é imprescindível ter como ponto de partida a condição juvenil em que cada um se encontra, levando em consideração toda a diversidade e desigualdade existentes no Brasil, que tornam as experiências vividas pelos jovens tão distintas, dependendo da raça ou cor, do grupo socioeconômico, sexo ou mesmo do território onde vivem”.

Descrédito com a política

Apontado como o ítem de menor importância dentro da realidade dos jovens brasileiros atualmente, a pesquisa também mostrou o grau de confiança em cada uma das instituições. Entre os entrevistados 82% não confiam nos partidos políticos, nem no Congresso Nacional (80%), governo (69%) e Presidência da República (63%).

A falta de confiança nas instituições políticas também reflete em uma baixa participação quando o assunto é o voto. Do total de entrevistados, 39% afirmaram que não votaram nas últimas eleições e 72% disseram que nem mesmo conversaram sobre temas políticos.

Enquanto as instituições políticas são as que despertam a menor confiança entre os jovens brasileiros, as igrejas e organizações religiosas são aquelas consideradas as mais confiáveis. Elas são consideradas muito confiáveis para 36% dos entrevistados, nem muito e nem pouco confiáveis para 31% e pouco confiáveis para 19%. Apenas 12% dos jovens afirmaram não ter nenhuma confiança em igrejas.

Preocupação com diversidade e igualdade de gênero

Os jovens também se mostraram intolerantes com a violência e abertos para a diversidade. Em uma lista com 17 diferentes atitudes que os entrevistados deveriam dizer se eram justificáveis ou não, a adoção de filhos por casais homoafetivos acabou na liderança, sendo totalmente justificável para 61% dos jovens. Os entrevistados também se mostraram favoráveis ao direito de uma mulher ter um filho sem uma relação amorosa estável (53%).

Eles também apontaram para uma diferença de tratamento entre o homem e a mulher quando o assunto é o mercado de trabalho. Para 55% dos entrevistados, os salários das mulheres são piores do que o dos homens e 50% acreditam que é mais difícil para as mulheres conseguirem postos de trabalho.

Sobre o crescimento profissional, 47% dos entrevistados consideram ser mais difícil para as mulheres obterem uma promoção e quase metade (48%) crêem que a presença das mulheres em cargos de responsabilidade e de poder político é bastante rara.

Cadê a felicidade?

A tristeza, depressão e ansiedade marcam o grupo de entrevistados, pois apenas um quarto (25%) acha que ser alegre ou feliz caracteriza a juventude. Ainda há 13% dos jovens que consideram a solidão como uma marca da geração e outros 30% afirmaram que uma das características da juventude é o egoísmo.

A característica que mais identifica os jovens é a de serem “preocupados demais com sua imagem” (44%) seguida por “rebeldia” (42%). Quase um terço deles ainda afirmou viver focado unicamente no presente, sem preocupações com o futuro.

Medos e incômodos

A segurança (ou a falta dela) também foi abordada pelo estudo. 49% dos entrevistados disseram sentir medo “quase o tempo todo” de ser assaltado no transporte ou no caminho para casa ou trabalho. Os outros medos destacados pelos jovens foram: da destruição do meio ambiente (47%), de não ter trabalho no futuro (40%), ser atingido por bala perdida (37%), ficar endividado (34%), sofrer violência sexual (29%) e perder o atual emprego (23%).

Entre os maiores incômodos, a corrupção apareceu para 62% dos jovens. O quesito “racismo, machismo e outras formas de opressão” ficou em segundo lugar, com 57%; já “a desigualdade entre ricos e pobres” e “acesso e qualidade da saúde” receberam, cada, 54% das menções.

Metodologia

A pesquisa é a seção brasileira de uma investigação mais ampla em nove países ibero-americanos. Além do Brasil, o estudo foi realizado em Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Espanha, México, Peru e República Dominicana. Foram entrevistados pessoalmente 1.740 jovens, entre 15 e 29 anos, residentes nas cinco regiões do Brasil.

Elaborada no segundo semestre de 2019, a pesquisa retrata justamente o momento que antecede o início da pandemia provocada pela Covid-19, e pode ser considerada um marco na transição dos jovens brasileiros, trazendo à tona dados que já eram preocupantes e que foram intensificados com as restrições, tais como o fechamento das escolas, a falta de acessibilidade para acompanhar atividades remotas, o aumento do desemprego e os impactos na saúde mental.

Os jovens pesquisados são 51,5% do sexo feminino e 48,5% do sexo masculino. 40% se consideram brancos, 39% pardos, 17% pretos, 2% amarelos, 1% indígena e 1% não respondeu. Além disso, 78,4% disseram ser solteiros, 20,4% se declararam casados (formalmente ou não) e 1,2% é de separados ou viúvos. 67,5% declaram não ter filhos e, dos 32,5% que têm, um terço (10,9%) são mães ou pais solo.