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publicado dia 28 de novembro de 2025

COP30 abre espaço, mas não oferece protagonismo às juventudes

Reportagem:

📄Resumo: Juventudes presentes na COP30 avaliam que o evento abriu portas para a participação juvenil, mas ainda está longe de incluir crianças, adolescentes e jovens nas decisões sobre o clima.

A reportagem a seguir, realizada por Gabriel Razo da Cunha com colaboração de Sidneia Chagas, Wesley Matos e Gabriel Lima – integrantes do projeto Vozes Daqui de Parelheiros do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC) e do Coletivo Encrespades – ouviu jovens ativistas sobre representatividade, impactos da emergência climática e articulações por Justiça Climática. 

A presença juvenil em discussões globais sobre o clima é mais do que simbólica: é urgente. No Brasil, os 48,5 milhões de jovens entre 15 e 29 anos já sentem os impactos crescentes da crise climática. Trata-se de 25% da população brasileira, segundo o Censo IBGE 2022

Quando somamos as crianças e adolescentes, que representam 19,8% da população, podemos afirmar que quase metade do Brasil é formada por pessoas que herdarão as decisões tomadas agora. 

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E elas já estão sentindo os efeitos. De acordo com o relatório “Crianças, Adolescentes e Mudanças Climáticas no Brasil” (publicado pelo UNICEF em 2022), milhões de jovens estão expostos a riscos ampliados relacionados a desastres ambientais, insegurança hídrica, poluição do ar, insegurança alimentar e desigualdades agravadas pelas mudanças climáticas, especialmente os que vivem em territórios periféricos, rurais e indígenas.

Amazônia e Belém no centro do debate climático 

COP30 abre espaço, mas não oferece protagonismo às juventudes
COP30: juventudes de diferentes regiões do Brasil mobilizadas na luta por Justiça Climática.

Realizada em Belém (PA), a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) é o maior encontro global dedicado às negociações climáticas e à definição de compromissos que impactam a vida no planeta. 

Pela primeira vez sediada na Amazônia, a conferência trouxe ao centro do debate uma cidade marcada por contrastes. Capital do Pará, Belém é porta de entrada para a maior floresta tropical do mundo, abriga uma das maiores concentrações de biodiversidade do planeta e é o território de populações ribeirinhas, indígenas e periféricas que convivem diretamente com os impactos ambientais. 

É nesse cenário que a COP30 ocorreu, destacando a Amazônia não como pano de fundo, mas como protagonista das discussões que definirão o futuro climático global.

Foi nesse território que nós, Vozes Daqui de Parelheiros e o Encrespades, estivemos presentes na COP30. 

Circulamos pela cidade, pelos espaços oficiais e pelos territórios de discussão paralelos, encontrando juventudes de diferentes regiões do Brasil que também estão mobilizadas no enfrentamento da crise sistêmica e na luta por justiça climática. 

Dentro e fora das áreas oficiais da COP30, a juventude ocupou tanto os espaços formais de negociação quanto
os territórios de mobilização popular. 

Dentro e fora das áreas oficiais da COP30, a juventude ocupou tanto os espaços formais de negociação quanto os territórios de mobilização popular. 

Desses encontros, ouvimos as juventudes sobre como se sentiram representadas, como estão sendo impactadas pelas decisões climáticas e como têm se articulado para protagonizar a luta por justiça climática dentro e fora da COP30.

Entre esses e essas jovens estavam Ruanne Martins, de 20 anos, liderança de Santa Inês (MA) e repórter jovem da Viração Educomunicação; Jonas Garcia, de 17 anos, educomunicador da Viração e integrante da RENAJOC, da Paraíba; e Karen dos Santos, de 23 anos, atriz, arte-educadora e comunicadora da Zona Leste de São Paulo (SP). 

Cada um deles levou para a COP sua vivência, sua luta e a voz dos territórios de onde vêm e todos compartilharam a mesma urgência: garantir que as juventudes fossem ouvidas de verdade.

Juventudes presentes: estratégias, desafios e disputas

Jovens ativistas participam da COP30 em Belém
COP30: as jovens ativistas Karen dos Santos (esq.) e Ruanne Martins estiveram presentes no maior evento climático do mundo.

Para Ruanne Martins, a participação jovem foi resultado de uma articulação “diversa e coletiva”, que se desdobrou em painéis, mesas, coberturas educomunicativas e ações políticas. 

Ela conta que o Fórum de Juventudes da COP30 foi um dos momentos mais emblemáticos, reunindo indígenas, quilombolas, ribeirinhos, juventudes periféricas e jovens da Amazônia e do Nordeste. “Essa imagem sintetiza isso: jovens ocupando um espaço historicamente negado a nós”, relata Ruanne. 

Participação jovem
foi resultado de articulação diversa
e coletiva, que se desdobrou em painéis, mesas, coberturas
e ações políticas. 

Jonas Garcia compartilha a mesma percepção. Ele descreve a COP como um espaço onde as juventudes precisaram se organizar para conseguir participar de forma ativa, disputando narrativas, construindo estratégias conjuntas e fortalecendo a representação de jovens do Nordeste e da Amazônia.

Já Karen dos Santos, que participou como jovem comunicadora da Viração, destaca a construção coletiva dos grupos de educomunicação, que se organizaram para garantir que as pautas ambientais e sociais chegassem a mais pessoas, dentro e fora da COP.

Quando se trata das estratégias para ocupar e incidir, Ruanne sintetiza as estratégias que mobilizaram os jovens em três eixos. O primeiro foi ocupar espaços oficiais do evento, como fóruns e mesas de debate. O segundo se focou na produção comunicacional,  com reportagens, podcasts, fotos e coberturas colaborativas. Por fim, o eixo de articulação em rede buscou conectar movimentos distintos para fortalecer a incidência política.

Jonas complementa essa visão ao afirmar que a juventude buscou criar espaços de diálogo e troca, tanto entre os próprios jovens quanto com organizações e representantes políticos. 

O ativista reforça que esses espaços foram importantes pois foram baseados, em especial, “na conversa e no entendimento das vontades e necessidades de cada jovem como representante de um território, de um lar, de uma região.”. 

A arte-educadora e comunicadora Karen dos Santos considera que a educomunicação ampliou a potência da participação juvenil. Ela relata que os jovens comunicadores encontraram na criação coletiva, seja em textos, vídeos ou coberturas, uma forma de fortalecer a presença das juventudes dentro do evento: 

“A gente estava em 10 jovens da Itália e de praticamente todas as regiões do Brasil. Tinha jovens do Norte, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste. Então, acho que a nossa cobertura pode falar de várias dimensões, sobre vários assuntos”, destaca. 

COP30 e os desafios para as juventudes 

Apesar da participação, os limites encontrados pelos jovens ao longo do processo foram muitos. 

Para os ativistas, a COP30 abriu portas, mas ainda não deu às juventudes o lugar que elas reivindicam. 

Para os representantes das juventudes ouvidos pela reportagem, a COP30 abriu portas, mas ainda não deu às juventudes o lugar que elas reivindicam. Ruanne resume esse sentimento ao dizer que houve “abertura simbólica, mas ainda não temos poder real”. 

Ela reconhece a existência de espaços dedicados ao diálogo com jovens, mas ressalta: “Ouvir não é decidir.” Falta influência concreta nas negociações e na elaboração de políticas.

Para Jonas, um dos principais desafios foi perceber que a juventude participou, mas ainda não tem espaço igualitário dentro das decisões. Ele questiona a presença e participação efetiva da juventude nos espaços decisórios. Para o ativista, é sintomática a ausência ou participação apenas como observadores das juventudes em espaços como a Blue Zone (Zona Azul) da conferência. 

Isso reflete muito bem no peso que as vozes da juventude realmente tiveram durante a negociação”, critica Jonas. 

Vinda de um território periférico, Karen acredita que as juventudes e suas ações ainda não são enxergadas. Para quebrar essa barreira, ainda é necessário bastante esforço. 

“Que gente quebre esse obstáculo mostrando o que a gente é: produzindo, falando, fazendo nossa voz ser ouvida e se colocando dentro daquela discussão. E fazendo com que outras vozes, a partir da nossa cobertura, ecoem para outros lugares”, diz. 

Juventudes na COP30: baixa representatividade nas decisões e sobrecarga de trabalho  

Baixa representatividade nas decisões, acentuada pelas desigualdades territoriais e pouca abertura para influência concreta, além da sobrecarga de trabalho são apontados por Ruanne Martins como entraves para a participação juvenil no evento. Sobre o último ponto, a ativista ressalta que muitos precisaram se desdobrar para participar, registrar e articular ao mesmo tempo. 

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Além disso, ela reforça que muitos jovens da Amazônia e do Nordeste só chegaram à COP graças a editais e mobilizações comunitárias. 

Fazer com que os representantes dos países e os negociadores compreendam a emergência climática como realmente uma urgência e levem em consideração as propostas das juventudes é um dos desafios apontados por Jonas.

Pouca abertura para influência concreta nos debates, falta de representatividade
e sobrecarga de trabalho são apontados como entraves para a participação juvenil

Essa distância entre os grupos que mais sofrem com a crise climática e os espaços de discussão e decisão é um desafio também apontado na quinta edição do relatório Encruzilhada Climática: Um Retrato das Desigualdades Brasileiras, da Oxfam Brasil.

O relatório analisa os desafios da transição para uma economia de baixo carbono a partir das desigualdades raciais, de gênero e territoriais, colocando as pessoas no centro das soluções e dos investimentos para um desenvolvimento verdadeiramente sustentável. 

“Não basta que o Brasil defenda posições progressistas no discurso se as delegações continuam sendo homogêneas e distantes das vozes de mulheres negras, indígenas, quilombolas, juventudes periféricas e territórios tradicionais. A representatividade nas negociações, considerando gênero, raça e origem regional, segue insuficiente e pouco transparente.”, destaca o relatório. 

Aprendizados da COP30 para as juventudes 

COP30 abre espaço, mas não oferece protagonismo às juventudes (2)
COP30: juventudes querem ir além da representatividade e decidir sobre o futuro do planeta.

Apesar das barreiras, Ruanne, Jonas e Karen voltaram da COP30 com um mesmo entendimento: as juventudes já mostraram que sabem ocupar espaços, agora é hora de incidir. 

Ruanne reforça que levará três lições principais: a importância de atuar com pautas nítidas e convergentes, a força da comunicação popular e a necessidade de exigir não apenas presença, mas poder de decisão. 

Essa última questão foi ponto de convergência entre as juventudes que estiveram na COP30: não queremos apenas ocupar um espaço simbólico, mas decidir sobre o futuro do planeta. 

Assim, atuar e incidir para além das conferências globais sobre o clima foi o maior aprendizado destacado pelos jovens.

“É necessário que a juventude se encontre e se identifique com os seus territórios e combata essa onda de ignorância que existe dentro do Brasil e essa onda de apatia gigantesca que existe dentro da própria juventude.” afirma Jonas. 

Karen também acredita que essa ação é necessária. Para ela, agora é fundamental apostar em “articulações nos nossos bairros, cidades, comunidades, universidades, escolas, na própria família e dentro dos  territórios.”

Ou seja, as juventudes reconhecem que ainda há muito trabalho pela frente, para além das duas semanas em Belém. 

* Reportagem por Gabriel Razo da Cunha, em colaboração com Sidneia Chagas, Wesley Matos e Gabriel Lima. Vozes Daqui de Parelheiros e Encrespades. 

COP30: Crianças e adolescentes cobram participação nas discussões sobre crise climática

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