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Em Manaus (AM), Projeto Uruê aproxima crianças indígenas urbanas da natureza

Publicado dia 26 de fevereiro de 2021

Existem no Brasil aproximadamente 300 etnias indígenas. Diferentes entre si, com saberes únicos a partir de seus territórios, são verossimilhantes quando se pensa na resistência histórica à necropolítica a que foram submetidas, bem como sua luta por terra. É no contato com território e natureza que estas populações indígenas produzem valores comunitários, culturais e de cosmovisão. 

Muitas comunidades indígenas vivem em perímetro urbano, no constante desafio de manutenção de suas tradições e de diálogo com o entorno. É o caso do Parque das Tribos, bairro indígena em Manaus (AM) que abriga cerca de 700 famílias de 30 etnias diferentes da região Amazônica. 

Grande parte dos habitantes dessa comunidade multiétnica são crianças, a maioria nascida em ambiente urbano. Foi para conectá-las com a natureza que a educadora e técnica de enfermagem Vanda Witoto, de etnia homônima, criou o Projeto Uruê (Na língua Witoto, a palavra significa criança), que funciona em parceria com o Centro Municipal de Educação Escolar Indígena (CMEEI) Wakenai Anumarehit, gerido pela educadora Claudia Baré.

“A comunidade do Parque das Tribos é cercada de mata, tem rios, um quintal com muitas plantas. Dentro do planejamento das aulas semanais, começamos a inserir momentos de contato com a natureza. Aos sábados, levamos as crianças para dentro da mata, tentando mostrar outra visão de mundo para elas”, detalha Vanda. “Quando a gente está na escola tradicional ou até nas nossas indígenas, elas não têm oportunidade de ir à mata, sentir o cheiro da folha.”

Vanda com algumas das crianças do Projeto Uruê / Crédito: Arquivo pessoal

As crianças urbanas e os ensinamentos indígenas ao ar livre 

No quintal que circunda o projeto Uruê, existem diversos tipos de árvores nativas da região amazônica. O contato com essas plantas, muitas vezes utilizadas em saberes medicinais indígenas, é um exemplo de como o Projeto Uruê convoca as crianças que nasceram em ambiente urbano a se integrar à natureza. 

“O projeto Uruê visa o fortalecimento da nossa cultura. Cantamos as línguas maternas debaixo das árvores e fazemos pinturas de corpo com o sumo de algumas frutas que conseguimos expelir”, explica a educadora. 

As atividades do Projeto Uruê tem uma perspectiva multigeracional. Seja nas andanças pela floresta ou nas brincadeiras tradicionais, é comum ver crianças pequenas, jovens e também mães com recém-nascidos. Vanda explica que dentro da perspectiva da educação indígena, não faz sentido separar etariamente as crianças.

 “A educação indígena preza pela vivência entre a realidade do adulto e da criança. É observando o pai produzir algum saber que a criança vai aprender”, exemplifica.

Como são cerca de 30 etnias, entre baré, witoto entre outras, a língua constitui muitas vezes um desafio na hora do aprendizado. E aí que essa geração multiparental entra para auxiliar. Com os adultos perto, eles podem traduzir os ensinamentos para cada uma das línguas, e também ajudar na tradução de material didático para a escola. 

Crianças brincam e experimenta na natureza / Crédito: Arquivo pessoal

Projeto Uruê sonhando o futuro

O projeto Uruê funciona como um reforço complementar para escola indígena local, ampliando para o território e para comunidade os aprendizados que acontecem dentro da sala de aula e focando principalmente na criação de um sentimento de orgulho pelas próprias culturas. 

“As nossas crianças que nascem na cidade vão deixando sua cultura por não terem a vivência, pelos pais não falarem a língua materna. O esforço é trazer a realidade tradicional para essa criança, para que ela não se envergonhe de quem ela é. No passado, minha geração foi silenciada por um processo de colonização muito cruel para os povos indígenas. Não queremos que nossos filhos sejam silenciados como fomos”, defende Vanda.

Por conta dos números de casos de Covid-19 no Brasil, que atinge de maneira sensível as populações indígenas, as atividades presenciais do projeto Uruê estão paradas. Vanda foi a primeira indígena do seu território a ser vacinada, e tem liderado uma campanha por doações e orientado a população local sobre medidas de profilaxia, enquanto o Centro de Educação continua as atividades remotamente . 

Para o futuro, o plano de Vanda e da comunidade é  tornar o Uruê maior, e que ele se expanda para um centro cultural no Parque das Tribos: “O grande sonho do nosso povo é  construir um maloca-museu, que possa ter livros, contar nossa história, que receba nossas crianças e velhos. Este seria um lugar de fortalecimento para nossa identidade e resgate das nossas memórias”.

Trilhas de engajamento do projeto Criança e Natureza

Esta matéria é a terceira de uma série que traz experiências e projetos que estimulam a relação entre criança e natureza, em parceria com o programa Criança e Natureza, do Instituto Alana.

É possível acompanhar uma série de conteúdos que inspiram a estreitar a relação entre crianças e mundo natural se inscrevendo no site do filme “O Começo da Vida 2: Lá Fora”. Famílias, educadores, gestores e conservacionistas ambientais recebem uma série de três a quatro e-mails com dicas e práticas sobre o tema. 

Acesse o site do filme O Começo da Vida 2: Lá Fora e se inscreva em uma das trilhas de engajamento

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