publicado dia 13 de setembro de 2012
Por Luciana Barreto, da Agência UnB
No marco do centenário do dramaturgo, romancista, contista e cronista pernambucano Nelson Rodrigues (1912–1980), o especialista na obra rodriguiana e professor de Artes Cênicas da Universidade de Brasília, Fernando Marques, contribui com a fortuna crítica do escritor com o livro A comicidade da desilusão: o humor nas tragédias cariocas de Nelson Rodrigues (Editora UnB/Ler). O lançamento ocorre nesta quinta-feira, 13, às 20h, na Livraria Cultura do Iguatemi, em Brasília.
Uma das marcas que notabilizaram o teatro, a ficção e as crônicas de Nelson é o humor. Conforme explica Fernando, “esse humor, sobretudo nas peças, frequentemente se alia a elementos aflitivos, mórbidos ou sórdidos, elementos em geral evitados nas comédias. A comicidade rodriguiana é singular e tem efeito incisivo sobre o público”.
O próprio dramaturgo considerava que “a simultaneidade do patético com o humorístico” distingue suas peças teatrais, de acordo com o que afirmou em entrevista de 1974. E para compreender a tarefa e o sentido que o riso assume no teatro de Nelson Rodrigues, o ensaísta recorreu, em sua pesquisa, às teorias da comicidade devidas a Henri Bergson, Sigmund Freud e Luigi Pirandello, acrescentando-lhes percepções próprias.
No livro, publicado pela Editora da UnB em parceria com a LER Editora, Fernando Marques formula os conceitos de “comicidade da desilusão” e de “situações moralmente insustentáveis” para examinar especialmente A falecida (1953) e Toda nudez será castigada (1965), peças emblemáticas do grupo das tragédias cariocas.
Para apontar e comprovar de que modo se opera a mescla de humor e drama, comicidade e morbidez – e o complexo jogo de tensões e distensões que anima as suas peças – o ensaísta conclui que o “anjo pornográfico” compôs a “metáfora incisiva do mal-estar afetivo e sexual vigente não apenas no Brasil, mas no mundo cristão”. Segundo Marques, “temas como o da virgindade, tomada como índice de pureza, perderam atualidade com a mudança dos costumes, e o autor abusou desses motes. Em troca, o desejo de absoluto, a utopia de uma vida moral olímpica, perfeita, contraposto à precariedade da carne e da alma, configura conflitos perenes, poeticamente fixados em sua obra”.
Ao buscar compreender a mecânica literária das obras, o autor ambiciona, assim, iluminar algo de seu sentido e sugere: “A luta entre natureza e cultura, representada nas dignas peças gregas, representa-se também aqui, nas cariocas. A partir delas, pode-se formular uma filosofia – uma visão do mundo – de origem brasileira e endereço universal”.
Fernando Marques tem graduação em Jornalismo e em Música, além de mestrado e doutorado em Literatura pela Universidade de Brasíla. Entre seus livros publicados, destacam-se Retratos de mulher (poesia, Varanda), Contos canhotos (LGE) e duas peças teatrais: Zé, adaptação do drama Woyzeck, de Büchner, e o livro-disco Últimos – comédia musical (ambas pela Perspectiva).



