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publicado dia 24 de janeiro de 2013

Aos 459 anos, São Paulo é reprovada por seus moradores

Na cidade com maior oferta do país, lê-se pouco, frequentam-se poucos clubes e espaços de recreação, viaja-se pouco, menos ainda se vai ao cinema.

Às vésperas do aniversário da cidade, a Rede Nossa São Paulo entregou ao novo prefeito os resultados da pesquisa IRBEM (Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município), que desde 2009 mede o nível de satisfação dos paulistanos com sua cidade. A pesquisa reúne um conjunto de indicadores que se referem tanto a aspectos objetivos quanto subjetivos sobre as condições de vida em São Paulo. Os indicadores foram definidos a partir de uma consulta pública junto a mais de 36 mil pessoas, que apontaram os itens mais importantes para a qualidade de vida no município em 25 temas.

Desde então, a cada ano o Ibope vai a campo para verificar o nível de satisfação com os itens escolhidos. Em 2012, foram entrevistadas 1.512 pessoas maiores de 16 anos de todas as regiões da cidade. Além dos dados relacionados ao bem-estar, a pesquisa também trata do nível de confiança da população nas instituições, a satisfação com os serviços públicos e a administração municipal e a percepção sobre a segurança na cidade.

Os resultados apontam para grandes desafios para Haddad e sua nova equipe, que estavam em peso no evento no SESC Consolação no último dia 17: 56% dos entrevistados sairiam da cidade, se pudessem. Não surpreende, já que a satisfação geral com a qualidade de vida na cidade recebeu a nota 4,7 em uma escala que vai de 1 a 10. De 169 aspectos analisados, apenas 28 receberam nota superior a 5. A cidade foi, portanto, reprovada. Mas, alguns resultados específicos chamam atenção.

Apesar da imagem de cidade agressiva e individualista, o item melhor avaliado pelos paulistanos em todos os anos da pesquisa é o que se refere às relações humanas, embora com uma nota apenas regular, de 6,5. Neste item, incluem-se, entre outros aspectos, as relações familiares, as relações com os amigos e com a comunidade. No entanto, quando se trata dos valores pessoais e sociais, a cidade recebe a nota 4,5, média obtida de aspectos como solidariedade, cultura de paz, cidadania, responsabilidade e ética.

Há certa generalização do acesso aos principais serviços públicos: 76% dos entrevistados utilizaram algum serviço de saúde pública no último ano, 52% utilizaram serviços da educação, mais de 90% tem acesso à água encanada, rede de esgoto, coleta de lixo, energia elétrica, transporte público, ruas asfaltadas e iluminadas, mais de 70% dos moradores encontram perto de casa delegacia , ronda policial, parques, praças e quadras esportivas.

Entretanto, a cidade é desigual e o paulistano não está feliz com isso: o item recebeu a nota 3,8. Os proprietários de automóveis costumam reclamar do trânsito, mas os 70% dos paulistanos que utilizam os ônibus aguardam, em média, 21 minutos até que chegue o seu.  Só depois deste tempo é que se inicia sua jornada pelas ruas engarrafadas da cidade.

Os usuários dos serviços públicos de saúde são, em sua grande maioria (86%), pessoas com renda familiar de até cinco salários mínimos. Estas pessoas aguardam, em média, 66 dias por uma consulta, 86 dias por um exame e 178 por procedimentos mais complexos.  Já os 29% dos paulistanos que possuem planos de saúde privados não aguardam nem um quarto deste tempo.

Dentre os usuários dos serviços educacionais públicos, 88% tem renda familiar de até cinco salários mínimos. Estes não avaliam mal os serviços recebidos: as creches receberam nota 7,6 e a educação básica ficou com nota geral superior a 6,0.

Mas o conjunto da população da cidade está insatisfeito com a educação, que recebeu nota 4,8: as famílias estão apenas medianamente envolvidas na educação, as condições de trabalho dos profissionais da educação também são apenas medianas. Ruim mesmo é a adequação da formação oferecida para o acesso ao mundo do trabalho, a promoção da cidadania e da democracia. Curioso que só ganhem manchetes resultados de provas-teste sobre conhecimentos básicos de português e matemática, mas não se mencione que a educação não cumpre o papel que lhe é definido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação: o pleno desenvolvimento do educando e o exercício da cidadania.

O paulistano critica a abordagem das instituições em relação aos jovens: 4,2 foi a nota dada para a forma como os policiais os tratam e 4,6 foi a nota para o nível de atratividade das escolas. As crianças e adolescentes não estão em situação melhor. A nota geral 4,2 sintetiza a insatisfação dos moradores desta cidade com o funcionamento do sistema de garantias de direitos e a proteção oferecida a esta população.

O morador está ainda insatisfeito também com seu acesso ao lazer e à cultura, cujas notas mal passaram de 4. Na cidade com maior oferta do país, lê-se pouco, frequentam-se poucos clubes e espaços de recreação, viaja-se pouco, menos ainda se vai ao cinema. Por aqui também é difícil ir a bibliotecas, centros culturais, teatros, shows, museus e exposições. Ressalta ainda neste item que a escola não contribui neste aspecto, sediando de forma insatisfatória manifestações artístico-culturais.

A área que mais piorou no último ano foi a da segurança, que recebeu nota 4,1. Mas, é interessante notar que a visão da população sobre assunto se sofisticou e já não é maioria os que simplesmente pedem mais repressão. Entre as medias sugeridas para diminuir a violência na cidade, os paulistanos citaram o combate à corrupção na polícia e nos presídios e as ações voltadas para a criação de oportunidades de trabalho para os jovens.

A área pior avaliada de todas é a da transparência e participação política, que recebeu a nota 3,5. Os moradores daqui não estão satisfeitos com seu nível de conhecimento sobre os espaços de participação política, o acesso a informações úteis, o nível de participação nas subprefeituras, o acompanhamento das ações dos políticos eleitos, a transparência dos gastos e investimentos públicos, a punição à corrupção e a honestidade dos governantes.

Podemos nos surpreender com o fato de a transparência e a participação política comporem o pior item da cidade, já que a demanda por esta participação não costuma ser reconhecida. Mas, possivelmente é exatamente aí, nesta demanda reprimida por participação, que se encontra a chave para a transformação da cidade. Esperamos que a nova gestão faça bom uso disso.

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