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publicado dia 17 de janeiro de 2014

“Conselho de Classe” expõe visão de professores sobre educação brasileira

Sentado na cadeira de plástico, uma professora aparentemente irritada faz anotações sob uma mesa bamba e vira e mexe usa o maço de papéis para se abanar e aliviar o calor.

Ao seu redor há um ventilador capenga, um armário rabiscado por todos os lados e outras cadeiras velhas e empilhadas, além de uma antiga cesta de basquete e uma trave de futebol desgastada. Ouve-se ao fundo um barulho alto de crianças brincando e os três sinais que indicam o fim do recreio.

Espetáculo retrata um conselho de classe em que as professoras expõem o descontentamento com o sistema de  educação brasileiro.                                                                                                                               Crédito: Dalton Valério

É assim que começa a peça “Conselho de Classe”, montada pela Cia. dos Atores em comemoração aos seus 25 anos de trajetória. Escrita por Jô Bilac e dirigida por Bel Garcia e Susana Ribeiro, o espetáculo retrata as mazelas da educação brasileira ao reproduzir o conselho de classe de uma escola pública carioca que passa por turbulências internas.

Questões docentes como acomodação, uso frequente de autoridade, desunião e despreparo, assim como problemas referentes à infraestrutura e falta de gestão, dão o tom – por vezes trágico, por vezes cômico – da trama, que concorre em três categorias do Prêmio Shell 2013: melhor autor, direção e cenário.

A revolta do boné

No conselho só aparecem quatro professoras (todas interpretadas por atores, o que potencializa a comicidade do espetáculo). Uma delas critica: “pra reclamar é uma beleza, mas na hora de comparecer à reunião…”. É quando aparece o novo diretor, João Rodrigo, um jovem inexperiente que tem a missão de substituir a antiga diretora e reestabelecer a relação de confiança entre professores e alunos – e também entre os próprios docentes – após um acontecimento que teve graves consequências: o “bonézaço”.

Quando a antiga diretora proibiu um aluno de usar boné dentro da escola, os seus colegas rapidamente se mobilizaram pelas redes sociais e convocaram uma manifestação lúdica: todos os alunos estariam com o acessório no dia seguinte. A diretora, então, barrou a entrada deles e permitiu aos seguranças da escola que controlassem a muvuca que se formou na porta. Derrubada acidentalmente no burburinho e com um corte na testa, ela observou os alunos grafitando e pixando os muros da escola.

Racha entre docentes

No conselho, professoras se acusam freneticamente: um que incitou a revolta, outro que tem um discurso colorido de direitos humanos mas na verdade usa o espaço da escola para revender roupas, outro que esconde a chave da quadra para ninguém usá-la se não for na sua aula. “Tá todo mundo doente aqui. Temos que ir de uma escola pra outra, pegar trânsito, lidar com salas de aula lotadas e alunos piadistas”, desabafa a professora de literatura. “A escola não cumpre mais sua função. O mundo do lado de fora é muito mais interessante para os jovens”, completa.

O conselho segue, então, com atritos, levando ao desespero das professoras e chiliques do novo diretor. As reflexões acerca do descaso que a pauta da educação e seus mais reconhecidos agentes – os professores – recebem no Brasil se aprofundam e ganham tom dramático: “Continuo esperando a maçã que nunca vem. Aqui, ninguém nunca vai te dizer obrigado”, lamenta a professora de língua portuguesa.

Ingressos

“Conselho de Classe” está em cartaz no SESC Belenzinho (Rua Padre Adelino, 1000 – Belém – São Paulo – SP). As apresentações acontecem às quintas, sextas e sábados, às 21h30, e domingo e feriados, às 18h30, até o dia 16/2.

Clique aqui para comprar ingressos antecipados.

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