publicado dia 15 de dezembro de 2025
Juventudes de Belém (PA) e de territórios periféricos cobram mais participação na COP30
Reportagem: Gabriel Razo da Cunha | Edição: Tory Helena
publicado dia 15 de dezembro de 2025
Reportagem: Gabriel Razo da Cunha | Edição: Tory Helena
📄Resumo: Para as juventudes de Belém (PA) e de muitos territórios periféricos no Brasil, a participação na COP30 envolveu barreiras, disputas e contradições.
A reportagem a seguir, de Gabriel Razo da Cunha com colaboração de Sidneia Chagas, Wesley Matos e Gabriel Lima (Vozes Daqui de Parelheiros e Encrespades), ouviu ativistas e jovens sobre a participação das juventudes locais e periféricas na discussão climática em 2025.
Em Belém (PA), cidade que recebeu a COP30 em novembro, grande parte das juventudes acompanhou o evento à distância, com pouco acesso, participação e decisão sobre o futuro do clima no planeta.
Apesar de conviverem com os efeitos da emergência climática e do evento em si na rotina da capital paraense, a maioria não foi convidada a tomar parte na mais recente edição da conferência da Organização das Nações Unidas sobre a crise no clima.
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Já para jovens oriundos de diferentes periferias do Brasil, o saldo final da participação no evento climático também foi insuficiente e atravessada por desafios financeiros.
Realizada em Belém (PA), a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) é o maior encontro global dedicado às negociações climáticas e à definição de compromissos que impactam a vida no planeta. A COP30 aconteceu em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro de 2025.
É o que relatam representantes das juventudes de Belém e educadores periféricos e quilombolas ouvidos pela reportagem durante a realização da COP30 no Brasil.
Para muitos jovens de Belém, a sensação de orgulho e visibilidade internacional conviveu com a dificuldade de acesso real à COP30.
“Como paraense, foi muito legal ver as pessoas de fora do Pará e ver que Belém é muito mais do que imaginavam. Isso fez eu ter mais apego pela minha cultura. Quando eu menos esperava, a cidade estava totalmente mudada”, conta Hugo Cabral, de 22 anos.
“Recebi a notícia da chegada da COP30 em Belém com um orgulho enorme. Era como se Belém tivesse finalmente ganhando o espaço que merece”, descreve Helber de Oliveira, 28 anos.
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Embora animados com o evento, ambos sentiram falta de espaços para jovens locais. Rodas de conversa, assembleias, oficinas ou até credenciais especiais para jovens locais acompanharem os debates são exemplos sugeridos por Helber de ações diretas de diálogo que a COP30 poderia ter estabelecido com os jovens no território.
“Como jovem, dá uma vontade grande de estar ali [na COP], contribuindo. Acho que as juventudes de Belém poderiam ter sido mais incluídas se houvesse mais espaços de diálogo direto”, critica Helber.
“A gente conhece a Amazônia na prática, no dia a dia, e incluir essa visão seria essencial. Mobilizar mais, ouvir mais e trazer a juventude para o centro das decisões teria fortalecido ainda mais o impacto da COP aqui”, observa ele.
A seletividade nas obras realizadas na cidade por conta do evento também entraram no saldo negativo para os paraenses.
“Senti vontade de participar, porém eu sabia que a maior parte das obras e eventos feitos [em Belém] foi para mostrar uma parte só da cidade. Nas periferias isso meio que foi esquecido”, relata Hugo.
“A casa da minha amiga ficou literalmente debaixo d’água. Para quem realmente foi feito o evento? Gosto de dizer que foi só uma ‘maquiagem’ pra receber a galera de fora”, observa Hugo sobre o impacto real da conferência para quem mora em Belém, lembrando dos diversos locais da cidade que ainda sofrem com as enchentes.
Apesar do trabalho prévio de mobilização realizado junto às juventudes, educadores e articuladores comunitários relataram dificuldades para viabilizar, de fato, a participação de crianças e jovens periféricas, quilombolas e de comunidades tradicionais na COP30.
“Nos organizamos nos territórios com formações preparatórias sobre a COP30, a fim de que os jovens pudessem fazer incidência política na Green Zone (Zona Verde da COP) e nos espaços para a sociedade civil”, relata Silvia Rocha, integrante da Aliança dos Povos pelo Clima, coordenadora de eventos do Coletivo Pretas Marias.
“A estratégia que nós usamos com a juventude foi de fazer as formações no território. Nós mobilizamos os jovens e trouxemos informações sobre a COP30 nas nossas formações”, conta Silvia, que também é assessora de mulheres da ACRQBV, do Quilombo Boa Vista, em Oriximiná (PA).
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Enquanto Silvia organizava formações na Amazônia, Jailson Lara enfrentava outro desafio no extremo sul de São Paulo (SP): a dificuldade de garantir que jovens da periferia chegassem à conferência.
“Corremos muito atrás para que os jovens pudessem embarcar para Belém e ir para a COP30. Nos inscrevemos em projetos, editais e chamadas, mas não conseguimos emplacar a ida dos jovens”, relembra o educador ambiental da Casa Ecoativa, articulador da Frente Periférica por Direitos e gerente de um Centro para Crianças e Adolescentes no território do Grajaú, em São Paulo (SP).
O educador conta que vivenciou a COP a partir da articulação periférica e das discussões sobre infância e juventude. No Grajaú, coordenou escutas com 200 crianças do território, incorporadas à Carta Periferias pelo Clima.
“No fim, acabou indo eu, a convite da Frente Periférica por Direitos”, lamenta Jailson, avaliando que a participação foi importante, mas insuficiente para representar as juventudes do território.
Silvia avalia que o espaço de discussão climática da COP30 não incluiu, de fato, a sociedade civil e os povos da floresta.
“A avaliação que nós temos de COP30 é de que aquele espaço ali não é pra nós. Não foi criado para a sociedade civil, para os povos da floresta”, critica.
Ainda assim, Silvia reforça que a presença popular é indispensável.
“Enquanto eles estiverem negociando lá dentro, a gente está lá fora manifestando e levando nossas vozes”, afirma. Para a quilombola, a participação juvenil é indispensável.
“É uma necessidade da juventude estar em massa naquele lugar, brigando e reivindicando por um espaço de negociação”, completa Silvia.
Os ativistas concordam que a sociedade civil precisa ocupar e tensionar espaços como a COP30, mesmo quando não são feitos para ela.
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“O aprendizado que fica é que a gente tem que estar ocupando esses espaços. Esses espaços são políticos. A gente articula, mobiliza e cria estratégias”, sintetiza Silvia.
Jailson reforça também que a verdadeira transformação no âmbito climático acontece nos territórios.
“Não é em uma Blue Zone (Zona Azul da COP30) que a gente vai fazer a diferença. É aqui, no front, nos territórios. É chão de terra, chão de escolas, chão de movimento social”, defende.
* Reportagem por Gabriel Razo da Cunha, em colaboração com Sidneia Chagas, Wesley Matos e Gabriel Lima. Vozes Daqui de Parelheiros e Encrespades.
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