publicado dia 12 de setembro de 2012

Por conta própria, sem qualquer subvenção estatal ou patrocínio de empresas, diferentes iniciativas atestam a força da autonomia de articuladores culturais na periferia. “O movimento hip hop deve muito ao faça-você-mesmo do punk”, afirma Mateus Subverso, convidado do debate “Arte Digital: no universo virtual o centro está em toda parte”, realizado no final de agosto em São Paulo, como parte do evento Estéticas das Periferias.
Subverso, que é grafiteiro, b.boy, designer e editor das Edições Toró, ao comentar a contribuição das redes sociais articuladoras para a produção de arte, ressaltou que na periferia a construção de uma rede de contatos que priorize o livre compartilhamento é prática recorrente e anterior ao advento da tecnologia da informação.
Para ele, uma das principais contribuições estéticas das periferias reside na proposta de outros modos de circulação da produção local, na qual subverte-se a lógica preponderante da arte controlada, confinada a determinados espaços e pensada exclusivamente como produto de arte, para propor a ocupação das ruas e dos espaços públicos.
A ocupação dos espaços comuns favorece também a remixologia, procedimento segundo o qual partes de diferentes obras são compartilhadas livremente, dando origem a criações inéditas. Subverso afirma que o advento das tecnologias digitais popularizou esta prática, já amplamente vivenciada na própria organização do hip hop enquanto movimento popular de contestação. “A periferia previu a gratuidade da net”, ressalta.
Corpo
A grande contribuição da periferia estaria em pensar o corpo como contraponto e resistência à soberania da tecnologia. Segundo o editor, a periferia devolve ao corpo seu status de força produtiva, ao afirmar a personalidade singular do sujeito e, portanto, a sua maturidade e poder de decisão frente à máquina – no caso, o computador, ferramenta que, em sua potência ambígua, traz soluções ao mesmo tempo em que hegemoniza.
O desafio, diz ele, é manter a rede ativa, viabilizar a qualidade da produção, mantendo a circulação a partir das potências criativas locais. “Sem infraestrutura de qualidade, a tecnologia por si só não basta. É necessário cautela com o discurso salvacionista que a tecnologia proporciona”, adverte.
Palavras fora do eixo
A mudança de padrão entre o especialista, detentor de um saber, em oposição a uma comunidade do conhecimento, articulada coletivamente pelo uso das redes digitais, traz mudanças nos modos e rituais em torno da obtenção e produção do conhecimento. Tal provocação foi posta em debate por Heloísa Buarque de Holanda, pesquisadora dedicada ao estudo da literatura e da cultura digital, durante sua participação no seminário.
Numa genealogia dos usos das mídias digitais de comunicação, Heloísa mostra que primeiro recorreu-se aos meios multimídias, posteriormente substituídos pela convergência de meios, até chegar-se a uma linguagem expandida, que “copia” e junta traços de diferentes linguagens, “híbridas e profundamente remixadas” em um único dispositivo.
A ativação dos novos meios em seus diferentes formatos propiciou o surgimento de diferentes “práticas da palavra” nas redes digitias. São tentativas de narrativas, identificadas por Heloísa, que vão do mash up literário – recorte e junção de partes de romances diversos deslocados para uma mesma narrativa; passando pelo crowd novel – em que a partir de um evento amplamente conhecido, o naufrágio do Titanic, por exemplo, internautas apresentam contribuições que serão, num segundo momento, editadas pelo propositor; até a poesia spam – criada a partir do lixo eletrônico; ou ainda a recriação de um clássico recontado em até 140 toques no twitter, como fizeram com Dom Quixote, de Cervantes.
Tais experimentações surgem a partir da partilha de conhecimentos propiciada pelas redes digitais, que hoje se organizam por um senso de resistência baseado na solidariedade, característica das convivências no cotidiano da periferia. “A periferia já tinha, bem antes da web, uma cultura da troca, até pela própria necessidade de se movimentar por diferentes realidades”, analisa a pesquisadora.



