publicado dia 13 de agosto de 2026
Como aproximar alimentação da cultura e da memória dos territórios
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
publicado dia 13 de agosto de 2026
Reportagem: Ingrid Matuoka | Edição: Tory Helena
🗒️ Resumo: Como aproximar a alimentação da cultura e da memória dos territórios? Conheça experiências educativas no Maranhão, Mato Grosso e Rio de Janeiro que colocam a alimentação no centro da aprendizagem.
A merenda escolar e a alimentação costumam ser compreendidas a partir do ponto de vista nutricional e da necessidade de um corpo bem alimentado para aprender melhor.
Lígia Amparo da Silva Santos, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), inverte essa lógica. Para ela, a alimentação não é instrumento da aprendizagem, é o próprio direito à Educação em ação.
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“Não é garantir um corpo biológico com maior possibilidade de aprender, é direito à Educação na sua integralidade. Comer coletivamente já é, por si, um ato pedagógico. Aprendemos a ser gente quando comemos juntos”, afirma a pesquisadora.
“A escola é território fundamental para a luta pelo direito à alimentação”, diz Lígia Amparo da Silva Santos
Dessa forma, a alimentação é compreendida como um momento de aprendizagem e de conexão dos sujeitos com a cultura e a memória dos territórios.
Além disso, a Educação Alimentar também tem o papel de provocar reflexões sobre como os alimentos são produzidos, os impactos que isso gera para o meio ambiente, e incentivar que os estudantes questionem o que consomem.
“Não adianta só interditar, dizer que o refrigerante não é bom para a saúde. É preciso interrogar por que gostamos de refrigerante. Isso abre para discutir publicidade, a história daquele alimento, o impacto no planeta. Esse reconhecimento do que forma o meu modo de comer é premissa elementar para qualquer mudança e ato político. A escola é território fundamental para a luta pelo direito à alimentação”, Ligia.
A especialista também chama atenção para um ponto que costuma ficar de fora: a fome não atinge apenas os estudantes. “Há muitos professores e trabalhadores da Educação em situação de insegurança alimentar. Não dá para um professor dar aula com fome. Comer precisa ser um ato coletivo”.
Em Pastos Bons (MA), a professora Rosa Maria Veloso, do Centro Educa Mais Professor Ribamar Torres, transformou as aulas de Ciências em trabalho de campo.
Pelo Clube de Ciências, o projeto “Fruturos” do Cerrado Maranhense leva os estudantes à mata e a uma quinta agroecológica para observar, coletar frutos e discutir a relação entre plantas, cura e território. Muitos deles são quilombolas e da zona rural, num estado onde o desmatamento avançou com a expansão da soja.
Para recuperar a memória afetiva desses frutos, muitas vezes associados à pobreza e à escassez, a escola convidou raizeiras, benzedeiras e artesãos para palestras e oficinas, boa parte deles pais e avós dos próprios alunos.
A proposta é mostrar que comida e território são formas de resistência, e que o saber das famílias é conhecimento.
Na Educação Infantil, o trabalho com a alimentação começa antes das primeiras palavras. Em Chapada dos Guimarães (MT), a professora Gislaine do Nascimento Silva, do Centro Municipal de Educação Infantil Magia do Saber Anita Goulart, trabalha textura com gelatina, oferece batata cozida em palito, pinta com a tinta da beterraba e da pitaia, faz chocalhos com sementes de jatobá e apresenta frutas do Centro-Oeste como o pequi, a coroa de frade e o grão de galo a bebês e crianças de até 2 anos e meio.
A ideia se repete em Sorriso (MT), onde Candida da Cruz Silva, hoje coordenadora pedagógica, orienta as professoras a tratar a alimentação de forma lúdica, com literatura, jogos e momentos de degustação.
No Rio de Janeiro, o projeto CulinAfro, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e liderado pela nutricionista Rute Costa, conecta a cultura alimentar quilombola às disciplinas de Linguagem, Ciências, Matemática, Geografia e Artes.
O que faz a comida virar eixo transversal é o movimento entre a sala e o território: cozinhar junto, ir ao refeitório, chamar agricultores para falar da produção e trazer os mais velhos para contar uma memória.
Em um caderno de atividades, as crianças levavam para casa perguntas sobre as receitas do cotidiano e das festas, sobre quem cozinha e com quais utensílios. A comida passa a ser vista como relação, e o conhecimento é construído com a comunidade.