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publicado dia 16 de outubro de 2013

Loucura à rua

Por Pedro Ribeiro Nogueira e Danilo Mekari

No subúrbio carioca, em Engenho de Dentro, habita uma construção gigantesca e antiga: o Instituto Nise da Silveira, antes Dom Pedro II, criado pelo imperador homônimo na segunda metade do século 19. Funciona lá, desde 2012, o Hotel da Loucura, numa velha enfermaria ressignificada, um dos braços do conjunto de prédios que na década de 40 foi morada de 2500 esquizofrênicos – hoje os “clientes”, como dizia Nise, não passam de 300.

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O hospício foi lar das experimentações de Nise. Em 1936, ela foi presa por um ano por ter em sua casa livros marxistas. Após isso, passou anos na clandestinidade até que em 1944 foi reintegrada ao serviço público no Centro Psiquiátrico que leva seu nome. Uma das primeiras médicas formadas no país, a alagoense não aceitava tratamentos agressivos e eletrochoques e foi uma das pioneiras da luta antimanicomial. Seus colegas médicos, então, resolveram tentar sabotar o trabalho psiquiátrico de Nise, colocando-a para realizar sessões de Terapia Ocupacional. E foi aí que seu trabalho deu um salto.

Nise percebia a enfermidade mental como uma crise expressiva, uma fragmentação do sujeito em busca de simbolização e via na arte uma ferramenta importante para adentrar o universo do esquizofrênico. Passou a incentivar exercícios artísticos com os internos, que progrediam seu trabalho. Alguns anos depois, em 1952, ela fundou o Museu Imagens do Inconsciente, que até hoje funciona dentro do Instituto, e consagrou artistas como Adelina Gomes, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros e Octávio Inácio.

“A Nise é o Galileu da medicina. Ela transformou o brontossauro agressivo da psiquiatria num beija-flor do lidar, do afeto, da criatividade. Através disso, você consegue resgatar até o esquizofrênico mais grave”, defende Vitor Pordeus, coordenador do núcleo de ciências e saúde da Secretaria Municipal de Saúde e um dos responsáveis pelo movimento que hoje ocupa o Instituto, dando vida e seguimento ao que Nise propôs.

Hotel da Loucura

Ao entrar no Nise, o futuro hóspede encontra um amplo prédio, com faixas coloridas estampadas de frases de solidariedade e fraternidade. Um segurança sentado numa mesinha é observado por uma enorme escultura amarela de onça. Mas as paredes ainda são paredes. Ao começar a subir pelas escadas, frases, poemas, grafites, fotos de Paulo Freire começam a colorir o ambiente. No terceiro andar, uma das alas hoje abriga quartos, camas e beliches. Na outra, antigas salas de enfermaria funcionam como salas de cinema, de reunião ou são velhos espaços agora coloridos e poeticamente colonizados.

Tudo começou em 2011, com o primeiro congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, grupo que articula diversos coletivos culturais do Rio de Janeiro. Com mais de 600 pessoas no Ocupa Nise, o grupo fez diversas intervenções teatrais urbanas que foram bem acolhidas pelos pacientes, moradores da região e crianças de rua. No ano seguinte, a segunda Ocupa Nise trouxe definitivamente os artistas para o Instituto e fundou o Hotel da Loucura, cujo primeiro hóspede foi o educador português radicado no Brasil, José Pacheco, fundador da Escola da Ponte.

Coletivos

O Hotel da Loucura ainda serve de espaço para reunir diversos coletivos de teatro, cinema, dança e performance, transformando-se assim em um centro cultural livre. “É um espaço totalmente gratuito que você não encontra hoje no Rio de Janeiro, a cidade da final da Copa do Mundo e das Olimpíadas”, ressalta Marcell Carrasco, integrante do Norte Comum, um dos grupos que compõem o espaço.

O coletivo, que tem parceria com o Sesc Tijuca, propõe uma nova maneira de valorizar a cultura da cidade: ao contrário do senso comum, que vê no centro e na zona sul os únicos pólos de cultura do Rio, eles acreditam que a zona norte, onde fica o Hotel, é uma região muito rica culturalmente e que deve ser a prioridade no que diz respeito à investimentos públicos e privados em equipamentos culturais.

“Temos uma série de projetos, e precisávamos de uma sede, um local de trabalho, que não tínhamos até março desse ano”, relata Marcell. Foi quando aconteceu o convite de Pordeus para o Norte Comum ocupar o Hotel da Loucura e pensar em projetos para serem executados em sintonia com os clientes. “Ele nos deu total autonomia para trabalhar e deixou claro que se trata de um espaço público”, conta. “Chegamos para somar junto à UPAC e aos outros coletivos presentes no Hotel”.

Sarau

Dentro do Hotel, o grupo organiza saraus mensais com participação ativa dos clientes. “Eles escrevem poesia e textos, têm alguns que são músicos, atores e atrizes, e tentamos despertar esse lado artístico neles novamente”, revela Marcell, que acredita no tratamento por meio da arte. “Você vê as pessoas declamando poesia, tocando violão e pintando parede, e elas ficam mais à vontade”.

O coletivo não se contenta em construir apenas o que acontece dentro do hotel, como também tem a preocupação de atuar nos entornos do antigo hospício. Há um núcleo de intervenção urbana, composto por designers e grafiteiros que, além de colorir o Hotel, vai pra rua e espalha desenhos e cartazes pelo Engenho de Dentro.

E uma coisa que não poderia faltar ao Hotel da Loucura é o evento mais simbólico do Rio de Janeiro: o carnaval. Há um grupo que organiza o bloco Loucura Suburbana com pacientes do Nise. Semanalmente, músicos dão aulas de bateria e outros instrumentos. Em 2013, o bloco desfilou na semana pré-carnaval.

Fuga dos gabinetes

“Fugimos dos gabinetes para encontrar com a população da cidade. O Rio é muito rico culturalmente, tem bloco de carnaval, mãe de santo, terreiro, capoeira, favela. São competências poderosas que desvalorizamos por causa da cultura eurocêntrica”, analisa o médico-ator Pordeus. “A matriz africana e a indígenas nos auxiliam. Da tradição ocidental, pegamos o teatro grego, que articula discurso e funciona como um rito, recurso coletivo. Nas culturas africanas, abundam rituais, festas públicas. Os indígenas tem suas quarups. Somos greco-árabes-judaico-cristão-tupinagôs e temos que nos reinventar a partir disso”, brinca.

Apesar do caráter inovador e renovador do espaço, ainda há muito há ser construído no local. Vitor não economiza adjetivos ao caracterizar o atual estado do hospital psiquiátrico. “É um campo de concetração em fim de festa, os pacientes são extremamente mal-tratados, é um lugar completamente horroroso. Mas nós somos alquimistas. Onde tem muito chumbo se transforma muito ouro. Os fenômenos de cura encontram caminho nos cenários mais sombrios, eu acredito que têm que estar onde têm chumbo mesmo, nas comunidades mais adoecidas, nas favelas violentas”, conclui o médico.

O Hotel hoje conta com uma programação intensa de cinema, artes e teatro. “Mas queremos que funcione 24 horas por dia, sete dias por semana, como um enorme ateliê transformando todo aquele campus em uma universidade popular aberta, sem vestibular, sem exceção, onde se trabalhe coletivamente, como a Escola da Ponte”, se entusiasma Pordeus, que vê na psiquiatria comunitária e na mescla do cientista com o artista um caminho para cura. “A saúde tem uma relação muito forte com a criatividade e a arte, além de ser profundamente política. Toda revolução é saúde. Aqui eu encontrei resultados que não vi em lugar nenhum do mundo”, conta.

Quem quiser conhecer, se hospedar ou fazer uma residência no Hotel da Loucura, está mais do que convidado. Basta trazer sua contribuição artística, material, espiritual, medicinal ou natural. Você pode entrar em contato pela página do Facebook do Hotel da Loucura. O bloco de carnaval sai também todo ano, na sexta-feira de carnaval, no Engenho de Dentro, lembrando sempre o refrão: “Saúde não se vende, louco não se prende. Quem tá doente é o sistema social”.

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