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publicado dia 25 de março de 2013

Mães e pais se tornam ativistas em defesa de crianças e adolescentes

Preocupadas com os impactos negativos da publicidade infantil, famílias se unem para influenciar mudanças na lei.

Publicado originalmente no ProMenino Fundação Telefônica

Quem nunca presenciou uma criança aos berros em meio aos corredores de um mercado ou na frente de vitrines de shoppings, desejando um produto que provavelmente nem precise? Especialistas afirmam que a relação entre infância e publicidade não é muito justa. Além de problemas como obesidade infantil, estresse familiar, adultização, erotização e sexualidade precoces, e outros fatores nocivos, o aumento da ideia do “ter para ser” se torna cada vez mais pertinente na sociedade contemporânea.

Há um consenso na comunidade científica mundial de que a publicidade direcionada à infância tem um impacto relevante em problemas da sociedade atual, e que o marketing está afetando o desenvolvimento de crianças e adolescentes que serão pais ou responsáveis um dia.

Preocupados com a influência e os impactos negativos dessa relação desigual, um coletivo de mães e pais ativistas em defesa da infância criou, há um ano, o movimento Infância Livre de Consumismo. “Os pais e as mães estão ausentes da constituição de políticas públicas. A partir do grupo, passamos a ter voz e representatividade”, comenta a publicitária Mariana Machado, uma das mães fundadoras do coletivo. “Agora existem mães que falam umas para as outras, que realizam publicações na mídia e fazem sua parte”.

O Infância Livre de Consumismo é um conjunto de pessoas unidas pela internet, principalmente, e de diversas partes do Brasil e do mundo. “Temos participantes de diversos estados, e também de países como Eslovênia, Alemanha e Argentina, que nos contam como é essa realidade em outros lugares”. A co-fundadora ainda cita o aumento na participação de homens, nem sempre na condição de pais, mas também tios e professores em contato com crianças. “Esse debate também os pertence e eles estão percebendo isso”.

A partir de um grupo de discussão no Facebook, os diversos participantes pautam e abordam temas que possam interessar aos pais e pessoas ligadas ao assunto. “Existe todo um movimento de maternidade, na internet. Atualmente as mães passaram a perceber que o ‘eduque você mesmo’ não se sustenta. Vários movimentos de mães e pais estão começando a exigir do Estado certas obrigações”, explica Machado. Ela afirma que o grupo tem como objetivo contribuir para o debate sobre a regulamentação da publicidade infantil, para que cheguem a uma solução que, de fato, defenda as crianças. “Queremos que as crianças tenham direito a uma infância mais consciente e menos consumista”.

Políticas Públicas

O coletivo tem se empenhado em acompanhar a construção e implementação de políticas públicas ligadas ao tema. No último dia 19, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, vetou o Projeto de Lei 1096/2011, que visava proteger as crianças dos apelos publicitários vinculados a alimentos pouco saudáveis. Ao longo desse processo, as mães marcaram presença pela aprovação do documento.

“Não estamos apenas trocando dicas. Estamos aprendendo uns com os outros sobre como os caminhos políticos podem ser construídos”, enfatiza Mariana Machado. Como resultado, o movimento já garantiu a presença de uma mãe em uma mesa de debate sobre consumismo infantil na Rio+20, realizada em 2012; também participou de duas audiências públicas em Brasília. Além disso, realizou o 1º Seminário Infância Livre de Consumismo, na Câmara dos Deputados.

Sobre planos para 2013, Mariana Machado diz que, como o Infância Livre é pautado pelos próprios pais, a preocupação está sendo focada na questão da obesidade infantil. “Estamos com uma demanda muito grande em relação à alimentação. O documentário Muito Além do Peso, que aborda a temática, foi um choque muito grande para todos nós”.

Sociedade do consumo

Para Machado, as pessoas de até 40 anos hoje foram crianças e adolescentes com mais acesso à rua, ao lazer, e com pais mais presentes. Em compensação, são parte de uma das primeiras gerações criadas na frente da TV, com propagandas bem piores do que as atuais. “Acabamos passando essa demanda de consumo aos nossos filhos. Vivemos em grandes cidades e enfrentamos vários desafios pós-modernos de falta de tempo e vulnerabilidades humanas, cada vez mais sensíveis à rotina da cidade”, lamenta.

Além de produtos e serviços, a publicidade agrega valores que concorrem com os familiares e comunitários. “A marca vende o produto, mas também ideias. E uma criança que não tem repertório ou experiência, não consegue discernir se aquela informação é verdadeira ou falsa. Já um adulto tem a obrigação de fazer essa critica”, aponta a publicitária. Ao mesmo tempo, ela faz uma ressalva. “Qual o tempo para esse adulto se informar e criticar? Se um pai sai de casa as cinco ou seis horas da manhã para trabalhar, e volta só à noite, como fica a orientação dos filhos?”.

Machado afirma que na sociedade contemporânea o ato de comprar talvez seja o vício menos danoso. O problema se dá com o impulso, ou seja, o consumo sem necessidade ou reflexão, desencadeando a doença. “Estamos consumindo porque podemos e não estamos conseguindo encontrar outras formas de lidar com nossas valias”.

A fundadora do coletivo tem dois filhos, de oito e três anos, e regula a publicidade em casa. Ela explica que o Infância Livre de Consumismo não quer dizer aos pais o que eles devem fazer, mas fazê-los refletir para também cobrarem o governo e as empresas. “Precisamos primeiro pensar sobre nós mesmos, nossos hábitos e necessidades. E a partir da reflexão sobre os benefícios ou malefícios do consumismo, naturalmente reduzimos o consumo e enxergamos novas formas de vida”.

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