Reportagens

Escolas públicas mostram força da Educação diante da crise climática

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Três experiências de escolas públicas, na EMEF Espaço de Bitita (SP), no CETI Dom Jorge Edward Marskell (AM) e na EE Indígena Cacique Domingos Barbosa dos Santos (PB), mostram como o espaço educativo pode ser um polo de resistência às mudanças climáticas e de cuidado com o território.

A crise climática já tira crianças e adolescentes da sala de aula e expõe milhões a riscos como secas, calor extremo e perda de acesso a direitos básicos. 

Enfrentar a emergência no clima exige ações complexas, que vão de compromissos globais para reduzir emissões até o reconhecimento das desigualdades pautadas pela Justiça Climática. 

Os efeitos da emergência no clima preocupam 90% dos estudantes brasileiros de 12 a 18 anos, de acordo com a pesquisa Adolescentes, jovens e mudanças climáticas no Brasil, realizada pelo Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (CIESPI/PUC-Rio) Embora 71% afirmem aprender sobre o tema na escola, os conhecimentos abordados em sala de aula ainda são insuficientes. 

Diante da escala dos desafios, é natural que as pessoas se sintam impotentes, mas experiências de escolas públicas mostram que o espaço escolar pode ocupar posição central na mobilização ambiental no território. 

O papel das escolas diante da crise climática 

Com 46 milhões de estudantes, 2,4 milhões de professores e 178 mil escolas, a rede pública de ensino é capilarizada em todo o Brasil, com iniciativas climáticas tão diversas quanto transformar um pátio, arborizar a rua ou cuidar de uma nascente. 

A presença da temática ambiental e de mudança no clima no currículo escolar também já é lei (Lei nº. 14.926/2024), com a expectativa de que a obrigatoriedade intensifique a aprendizagem e reflexão sobre a emergência em sala de aula. De acordo com o Censo Escolar 2024, 67% das escolas públicas já desenvolvem ações de Educação Ambiental e 60% declaram o tema como eixo curricular. 

Apesar dos avanços, a pesquisa “Educação sobre Mudanças Climáticas: Percepções e Práticas de Professores no Brasil” revela um abismo na formação docente. 

O levantamento, realizado pela Nova Escola com o Office for Climate Education, ouviu 1,6 mil docentes. Entre os achados,  a percepção de que a Educação Climática é muito importante para ampla maioria (92%) dos professores, mas 38% ainda não estão seguros para ensinar sobre o tema e 40% das escolas não têm plano de ação climática no Projeto Político Pedagógico (PPP).

EMEF Espaço de Bitita: um bosque no lugar do concreto

No Canindé, região central de São Paulo (SP), a EMEF Espaço de Bitita recebe 750 estudantes do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). 

Conhecida pelo alinhamento à Educação Integral,  gestão democrática e ações antirracistas, a escola atende uma população diversa em um território com pouco verde e alta concentração de poluentes.

Nesse contexto, o projeto Educação Ambiental: semeando territórios educativos e justiça climática, busca apoiar a formação dos educadores e estudantes, ao mesmo tempo em que realiza ações concretas de adaptação ambiental na escola do Canindé. 

A iniciativa é desenvolvida pela Cidade Escola Aprendiz, por meio do Programa Educação e Território e financiada pela Central de Penas e Medidas Alternativas da Justiça Federal de São Paulo (CEPEMA).

Para Carlos Eduardo Fernandes, coordenador pedagógico da EMEF Espaço de Bitita, a escola tem papel insubstituível na reconexão com a natureza. 

“A maioria da população está vivendo em zonas urbanas e consumindo alimentos empacotados, mas não vê as pessoas plantando. A escola é importante nesse processo de religar todas essas experiências com a vida cotidiana. Se não for pela escola, por onde seria?”, reflete o educador. 

Com duração de um ano, o projeto inclui diagnóstico socioambiental participativo, intervenções no espaço escolar, formação de profissionais da escola e estudantes e oficinas de Educomunicação. 

O ponto de partida será uma leitura coletiva da escola e de seu entorno, para identificar desafios, reconhecer potencialidades e definir prioridades. Com base nesse diagnóstico, serão planejadas e realizadas pelo menos duas intervenções socioambientais de baixo custo.

Além disso, o percurso será acompanhado por 20 horas de formação em Educação Ambiental e Climática. Articulados ao diagnóstico e às intervenções, a ideia é que os encontros conectem os conhecimentos abordados aos desafios do cotidiano e às mudanças que a comunidade deseja para a escola.

Nas oficinas de Educomunicação, os aprendizados sobre Justiça Climática vão ganhar  novas formas de expressão e circulação. A produção e o compartilhamento de conteúdos educativos buscam ampliar a participação da comunidade escolar e do território, fazendo com que as descobertas e experiências cheguem em mais pessoas.

O projeto visa ampliar também as ações, estruturas e reflexões já propostas pela comunidade escolar. 

“Já temos [na escola] cisternas, água de reuso, vias de receber um biodigestor, aquecimento das salas e circulação do ar, temperatura amena na escola”, elenca o coordenador pedagógico. 

Quando a escola fez um mapa afetivo com as crianças, o lugar preferido delas para estar foi o bosque, uma área do pátio com árvores de grande porte, banco circular e redes. “Os estudantes do Atendimento Educacional Especializado (AEE) pedem para ir até lá quando precisam se regular. Lá tem sombra, clima ameno e dá para ver o céu”, conta Carlos Eduardo.

A escola abraçou a ideia e decidiu ampliar a experiência. “Fechamos o estacionamento e vamos transformar em outro bosque maior. Estamos em uma tarefa de tirar o concreto, reflorestar esse espaço, pensar juntos outros usos e interações”, afirma o coordenador pedagógico.

Para estudar os efeitos da crise de perto em Itacoatiara (AM)

Durante a seca extrema no Norte do país em 2024, o Rio Amazonas, no trecho do município de Itacoatiara (AM), chegou a 32 centímetros. Em épocas normais ou de cheia, a média é de 7 a 10 metros. 

Diante da crise, o Centro Educacional de Tempo Integral (CETI) Dom Jorge Edward Marskell decidiu levar seus estudantes de Ensino Médio para observar de perto o leito seco e quebradiço do rio, algo que nunca tinham presenciado antes.

A ação fez parte do projeto “Desvendando o futuro da pesca na Amazônia: respostas às mudanças climáticas e à seca dos rios”, que integra o Mapa de Experiências de Educação Integral em tempo integral, do Ministério da Educação (MEC).

“O regime hidrológico de cheias e secas influenciam a nossa comunidade, que depende do rio para se locomover, e organiza as atividades de sobrevivência, como a pesca. Era para o Estado estar preparado para esses fenômenos climáticos, mas não é o que acontece”, conta Leandro de Oliveira Rodrigues, professor de Biologia responsável pela iniciativa.

Em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), os estudantes fizeram pesquisas bibliográficas, estudaram mapas e recursos pesqueiros e visitaram a comunidade ribeirinha do Lago do Canaçari, onde conversaram com moradores sobre as mudanças na rotina, como precisar acordar mais cedo porque a locomoção pelo rio fica mais difícil, e sobre a morte de espécies de peixes. 

O percurso terminou em uma feira temática aberta à comunidade. “Vários dos jovens que participaram desse projeto hoje foram cursar Engenharia Ambiental, Biologia e Química, porque ficaram muito motivados a estudar e fazer algo sobre a crise climática”, diz o professor.

Escola indígena planta mil mudas por ano em seu território

“A temática ambiental carece urgentemente da união de todos os que fazem a Educação escolar no país, pois, através de uma atuação em rede, as instituições de ensino deixam de ser apenas espaços de reprodução de conteúdo e passam a atuar como polos de resiliência e adaptação em seus respectivos territórios”, afirma Emerson Felipe da Silva, professor de Educação Física da Escola Estadual Indígena Cacique Domingos Barbosa dos Santos, em Rio Tinto (PB).

Na escola de Emerson, o problema foi identificado pelos próprios estudantes. Convidados a refletir sobre o maior desafio do território, quase todos responderam: a falta de água, consequência de anos de monocultura de cana-de-açúcar e desmatamento que levaram ao colapso da nascente da Aldeia Jaraguá, em Rio Tinto (PB).

“Decidimos começar a reflorestar, conscientizar a população e conservar o meio ambiente para amenizar a problemática dos recursos hídricos”, contou Emerson em entrevista em 2024. Desde 2017, a escola, as famílias e a comunidade plantam todos os anos mil mudas em torno das nascentes. O projeto venceu a 7ª edição do Prêmio Territórios, do Instituto Tomie Ohtake.

O trabalho seguiu com o projeto “Corporeidade, território, ancestralidade e ecossaberes”, que começou com cerca de 10 estudantes do 9º ano e hoje envolve os 90 alunos do Ensino Fundamental.

A escola une práticas corporais indígenas, como o Toré, à abordagem STEAM. Os estudantes calcularam áreas atingidas pela voçoroca, erosão provocada pela falta de vegetação, e planejaram ações de reflorestamento e um viveiro comunitário de espécies nativas.

O projeto conta com apoio de parceiros como ICMBio, SESI e a associação de pescadores e agricultores da aldeia. A iniciativa venceu o Prêmio Professor Porvir em 2026, na categoria Anos Finais do Ensino Fundamental. 

“O cuidar da mãe terra aos povos originários é algo singular. Portanto, exige ações e projetos contínuos para a obtenção do êxito”, afirma o educador.

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