{"id":96,"date":"2016-04-05T22:03:03","date_gmt":"2016-04-05T22:03:03","guid":{"rendered":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/?p=96"},"modified":"2016-04-05T22:03:03","modified_gmt":"2016-04-05T22:03:03","slug":"mobilidade-educacao-e-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/2016\/04\/05\/mobilidade-educacao-e-territorio\/","title":{"rendered":"Mobilidade, Educa\u00e7\u00e3o e Territ\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p><strong>O territ\u00f3rio em torno da Cidadania<\/strong><\/p>\n<p>Uma cidade democr\u00e1tica, justa e solid\u00e1ria deve conter, em sua ordem pol\u00edtica,\u00a0f\u00f3runs institucionalizados onde os desentendimentos possam ser explorados\u00a0sistematicamente. \u00c9 surpreendente, entretanto, que esses lugares sejam\u00a0atualmente t\u00e3o escassos em nossas cidades. Sobretudo em tempos de radicalismo\u00a0pol\u00edtico e religioso, \u00e9 preciso buscar alternativas com vista \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito\u00a0cr\u00edtico no debate p\u00fablico e coletivo.<\/p>\n<p>Esses f\u00f3runs devem ser propostos n\u00e3o somente em lugares tradicionalmente\u00a0atribu\u00eddos ao exerc\u00edcio do debate p\u00fablico (c\u00e2maras, comiss\u00f5es, comit\u00eas etc.), mas\u00a0tamb\u00e9m em diversos outros espa\u00e7os de nossas cidades: pra\u00e7as, coretos,\u00a0associa\u00e7\u00f5es de moradores, mercados locais etc. O territ\u00f3rio, em seus m\u00faltiplos\u00a0\u00e2mbitos, pode constituir-se como formador de pr\u00e1ticas, experi\u00eancias, rela\u00e7\u00f5es e\u00a0materialidades, que articulam maneiras poss\u00edveis de se entender como parte\u00a0integrante dele (1).<\/p>\n<p>Por meio da ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, a cidadania \u00e9 restitu\u00edda,\u00a0fomentando um dos elementos que constituem a vida em sociedade. Por meio da forma\u00e7\u00e3o atenta ao desenvolvimento da crian\u00e7a e do jovem, consideramos a\u00a0educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m do cidad\u00e3o adulto (2).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-98\" src=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-2.jpg\" alt=\"formacao mobilidade urbana 2\" width=\"781\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-2.jpg 781w, https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-2-300x131.jpg 300w, https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-2-768x335.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><\/p>\n<p><strong>A Educa\u00e7\u00e3o em torno do Territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>Partindo das m\u00faltiplas possibilidades de apropria\u00e7\u00e3o que o territ\u00f3rio permite,\u00a0devemos procurar flexibilizar nossos h\u00e1bitos e retomar lugares na cidade que, ao\u00a0longo do tempo, passaram a ser exclusivos de usos que n\u00e3o consideram a escala\u00a0humana apropriadamente. Lugares para os quais n\u00e3o olhamos como possibilidades\u00a0podem se tornar espa\u00e7os que abrigam vontades livres e naturais. Pontes, rotat\u00f3rias,\u00a0largos, viadutos, margens de rios, \u00f4nibus e canteiros podem parecer hoje\u00a0inacess\u00edveis, mas h\u00e1 pouco tempo eram destinados prioritariamente aos que\u00a0acessam a cidade andando a p\u00e9 (3).<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o das escolas na recupera\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os \u00e9 muito importante. Sendo\u00a0os equipamentos p\u00fablicos mais capilarizados do pa\u00eds, elas t\u00eam grande potencial de\u00a0articular, em diferentes escalas, realidades socioculturais muito distintas. Essas\u00a0realidades podem ser observadas entre bairros de uma cidade, e tamb\u00e9m entre as\u00a0escolas de diferentes cidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Escolas s\u00e3o lugares que abrigam profissionais e alunos que se deslocam todos os\u00a0dias, necessariamente, a fim de possibilitar seus encontros. Para que haja escola,\u00a0h\u00e1 pr\u00e1tica de territ\u00f3rio. H\u00e1 deslocamentos, observa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es que podem ser\u00a0alimentadas e devem ser consideradas na experi\u00eancia educativa dos cidad\u00e3os, fora\u00a0e dentro do ambiente escolar.<\/p>\n<p>A partir das experi\u00eancias obtidas na viv\u00eancia fora da sala de aula, a educa\u00e7\u00e3o\u00a0representa a mudan\u00e7a de padr\u00f5es de comportamento, pois ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico\u00a0\u00e9 aceitar a imers\u00e3o em um universo com forte potencial de mobilidade e\u00a0permanentemente confrontar alteridades (4). Al\u00e9m de lidar com\u00a0crian\u00e7as, oferece a forma\u00e7\u00e3o de alunos que, dentro de poucos anos, poder\u00e3o\u00a0desempenhar ativamente seu papel no debate p\u00fablico. Essas s\u00e3o qualidades\u00a0relativamente raras no \u00e2mbito das pol\u00edticas p\u00fablicas, sendo uma estrutural e outra\u00a0de curto prazo.<\/p>\n<p>Com vistas ao territ\u00f3rio, as propostas que visam \u00e0 educa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, justa e\u00a0solid\u00e1ria t\u00eam, assim, fortes implica\u00e7\u00f5es no que se refere \u00e0 forma de ocupa\u00e7\u00e3o dos\u00a0espa\u00e7os. Disso decorre a discuss\u00e3o da mobilidade em torno da educa\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, da\u00a0\u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a forma como nos movemos nesses espa\u00e7os e a efetiva\u00e7\u00e3o das\u00a0mudan\u00e7as que estamos buscando atingir.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-99\" src=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-3.jpg\" alt=\"formacao mobilidade urbana 3\" width=\"781\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-3.jpg 781w, https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-3-300x151.jpg 300w, https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/formacoes\/saopaulo\/dreipiranga\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/formacao-mobilidade-urbana-3-768x387.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" \/><\/p>\n<p><strong>A\u00a0mobilidade em torno da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA mobilidade n\u00e3o pode ser reduzida aos deslocamentos no espa\u00e7o, nem ao \u00e2mbito\u00a0dos transportes somente. A mobilidade \u00e9 um fen\u00f4meno social total\u201d (5). Essa informa\u00e7\u00e3o, dissociada do vi\u00e9s industrial que costuma ser empregado quando conversamos\u00a0corriqueiramente sobre mobilidade (baseada em tempos, fluxos, velocidades etc.),\u00a0permite estabelecer outro ponto de partida para discutirmos uma rela\u00e7\u00e3o\u00a0fundamental: como a mobilidade pode fortalecer a educa\u00e7\u00e3o, e vice-versa. \u201cOs\u00a0ve\u00edculos se multiplicam e as cal\u00e7adas est\u00e3o apinhadas de pessoas apressadas (&#8230;).\u00a0N\u00e3o h\u00e1 lugar para elas [as crian\u00e7as] nas ruas. Os adultos n\u00e3o disp\u00f5em de tempo\u00a0para se ocuparem com elas, pois s\u00e3o oprimidos por compromissos urgentes\u201d (6),\u00a0afirma, em 1938, a educadora Maria Montessori. E prossegue: \u201cO rem\u00e9dio n\u00e3o\u00a0consiste em fazer o adulto aprender algumas coisas ou integrar uma cultura\u00a0deficiente. N\u00e3o. \u00c9 preciso partir de uma base diferente. \u00c9 necess\u00e1rio que o adulto\u00a0encontre em si mesmo o erro ignorado que o impede de ver a crian\u00e7a\u201d (7).<\/p>\n<p>Ver, perceber, estar atento \u00e0 crian\u00e7a e ao jovem. Dentro da sala de aula, n\u00e3o \u00e9 de\u00a0qualquer forma que desenvolvemos essas habilidades. O mesmo ocorre no espa\u00e7o\u00a0exterior \u00e0 escola, em que devemos tomar os cuidados para facilitar a adapta\u00e7\u00e3o desses jovens ao mundo externo e nos aproximar da escala do ser humano: do\u00a0nosso tamanho, da nossa capacidade de movimento e na dimens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es\u00a0que podemos desenvolver com outras pessoas e com os lugares. O andar a p\u00e9, isto\u00a0\u00e9, a forma de explora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio por meio da caminhada, torna-se assim a\u00a0forma mais natural e mais poderosa de se relacionar com o que nos envolve.<\/p>\n<p>Abarca uma experi\u00eancia educadora, solid\u00e1ria e cidad\u00e3. \u00c9 a pr\u00e1tica dos nossos\u00a0pr\u00f3prios m\u00fasculos que, em conjunto com nossos desejos, faz com que nos\u00a0desloquemos e cheguemos onde queremos. Se essa prepara\u00e7\u00e3o (ver, perceber e\u00a0observar o jovem) n\u00e3o for efetuada, e se ainda n\u00e3o forem adotadas as atitudes\u00a0adequadas a tal prepara\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel ir adiante.<\/p>\n<p><strong>O Grupo em torno da Mobilidade<\/strong><\/p>\n<p>A partir da vontade em debater o tema da mobilidade, surge em 2012 o ap? estudos\u00a0em mobilidade, reunindo estudantes de cursos e universidades distintas. Desde\u00a02014 fora do campus da USP, o grupo se re\u00fane agregando estudantes e\u00a0profissionais de origens e forma\u00e7\u00f5es cada vez mais diversas. Buscando estudar o\u00a0tema dos transportes e das pol\u00edticas p\u00fablicas de forma mais abrangente, o grupo\u00a0tem encontrado na educa\u00e7\u00e3o uma ferramenta essencial para repensar a rela\u00e7\u00e3o\u00a0com mobilidade, dentro e fora do ambiente escolar, utilizando a cidade como\u00a0territ\u00f3rio de aprendizagem<\/p>\n<p>Com essa preocupa\u00e7\u00e3o, o ap? elegeu uma s\u00e9rie de elementos ligados \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, \u00e0\u00a0moral e \u00e0 experi\u00eancia de alteridades no espa\u00e7o p\u00fablico como centrais para uma\u00a0educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 cidadania. Esses elementos, encontrados com maior\u00a0intensidade na caminhada como pr\u00e1tica de explora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, serviram de\u00a0insumo para desenvolver um projeto de educa\u00e7\u00e3o em mobilidade voltado \u00e0\u00a0cidadania.<\/p>\n<p>O primeiro projeto de educa\u00e7\u00e3o do grupo, denominado \u201cExploradores da Rua\u201d, teve\u00a0in\u00edcio em 2015, com a preocupa\u00e7\u00e3o de gerar junto \u00e0 escola as primeiras\u00a0explora\u00e7\u00f5es do entorno da escola. Atuando desde a base da concep\u00e7\u00e3o da\u00a0proposta (por ex. iniciativas de mapeamento do entorno do territ\u00f3rio da \u00a0escola,compatibiliza\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados das explora\u00e7\u00f5es ao projeto pol\u00edtico pedag\u00f3gico,\u00a0identifica\u00e7\u00e3o dos destinos das sa\u00eddas), pretendemos que a escola se sinta\u00a0protagonista dessas a\u00e7\u00f5es e torne as explora\u00e7\u00f5es da rua algo cotidiano e integrante\u00a0do programa da escola. O ap? atua, portanto, como mediador ativo, no in\u00edcio de um\u00a0processo que pretende que a escola se torne aut\u00f4noma para criar e manter contato\u00a0com as distintas associa\u00e7\u00f5es, entidades e espa\u00e7os culturais do entorno. Esperamos\u00a0que essa a\u00e7\u00e3o promova tamb\u00e9m o contato no outro sentido, em que os distintos\u00a0integrantes do bairro encontrem na escola um lugar de reuni\u00e3o e extens\u00e3o dos\u00a0desejos para o espa\u00e7o comum.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>(1) Jaume Martinez. A cidade como curr\u00edculo: pesquisador espanhol desafia escola a\u00a0olhar a rua (entrevista). Portal Aprendiz. 2014. Dispon\u00edvel em\u00a0http:\/\/portal.aprendiz.uol.com.br\/2014\/11\/12\/cidade-como-curriculo-pesquisador-\u00a0espanhol-desafia-escola-olhar-rua\/<\/p>\n<p>(2) Maria Montessori. A Crian\u00e7a. 1936. C\u00edrculo do Livro. S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>(3) Marcel H\u00e4nggi. Von der Unvereinbarkeit des Automobils mit der menschlichen\u00a0W\u00fcrde (palestra). 2013.<\/p>\n<p>(4)\u00a0Vincent Kaufmann. Les paradoxes de la mobilit\u00e9. Lausanne: Presses polytechniques\u00a0et universitaires romandes, 2008.<\/p>\n<p>(5)\u00a0Ibidem. P. 99.<\/p>\n<p>(6) Maria Montessori. Op. cit. P. 7<\/p>\n<p>(7) Maria Montessori. Op. cit. (grifo da autora). P. 23.<\/p>\n<p>(8)\u00a0Ibidem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O territ\u00f3rio em torno da Cidadania Uma cidade democr\u00e1tica, justa e solid\u00e1ria deve conter, em sua ordem pol\u00edtica,\u00a0f\u00f3runs institucionalizados onde os desentendimentos possam ser explorados\u00a0sistematicamente. \u00c9 surpreendente, entretanto, que esses lugares sejam\u00a0atualmente t\u00e3o escassos em nossas cidades. 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