{"id":31,"date":"2017-11-17T12:00:29","date_gmt":"2017-11-17T14:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/?page_id=31"},"modified":"2018-12-03T18:11:24","modified_gmt":"2018-12-03T20:11:24","slug":"educacao-integral","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/infancias-e-migracao-regional-em-sao-paulo\/educacao-integral\/","title":{"rendered":"Migrantes e o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Est\u00e1 no rosto da crian\u00e7a, percebe a boliviana Jobana Moya, que vive no Brasil h\u00e1 10 anos. A filha Wayra, 7 anos, estuda em uma escola da rede municipal de S\u00e3o Paulo. Portugu\u00eas na ponta da l\u00edngua e pele mais clara do que a da m\u00e3e, que \u00e9 neta de qu\u00e9chuas, Wayra tem facilidade para se inserir nos espa\u00e7os, algo que n\u00e3o acontece com todas as crian\u00e7as migrantes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cOs mais afastados s\u00e3o os mais pobres, os negros e os que t\u00eam tra\u00e7os ind\u00edgenas, no caso dos imigrantes\u201d, aponta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A imigrante chilena Andrea Carabante Soto compartilha da mesma percep\u00e7\u00e3o. Ao lado de Jobana, ela atua como ativista no Coletivo Warmis e j\u00e1 ouviu diversos relatos sobre racismo e xenofobia entre as crian\u00e7as. \u201cDentro da escola, depende muito do fen\u00f3tipo que voc\u00ea tem. Se voc\u00ea \u00e9 boliviano e tem um fen\u00f3tipo ind\u00edgena, voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 tratado da mesma forma que eu, que sou branca e chilena, que agora \u00e9 um migrante aceito, diferente de 30, 40 anos atr\u00e1s.\u201d<\/span><\/p>\n<div class=\"box\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.warmis.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Coletivo Warmis<\/strong><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Formada por ativistas volunt\u00e1rias, a Equipe Base Warmis \u2013 termo que significa<em> mulheres<\/em> em qu\u00e9chua \u2013 faz parte do Organismo Internacional do Movimento Humanista Converg\u00eancia das Culturas. Em S\u00e3o Paulo, atua em diversas frentes pela garantia do acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o para a comunidade imigrante, especialmente para as mulheres, e pela valoriza\u00e7\u00e3o da cultura migrante. Os projetos desenvolvidos pelo coletivo denunciam a viol\u00eancia obst\u00e9trica, trabalham a sensibiliza\u00e7\u00e3o cultural por meio da m\u00fasica e ampliam a difus\u00e3o de conte\u00fados. As ativistas tamb\u00e9m realizam apresenta\u00e7\u00f5es em escolas, contribuindo para a preven\u00e7\u00e3o e enfrentamento da xenofobia.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Andrea percebe o privil\u00e9gio dado pela cor da pele e classe econ\u00f4mica, mas como migrante tamb\u00e9m enfrenta desafios cotidianos para garantir ao filho Ulisses, 4 anos, uma inf\u00e2ncia em sua integralidade. Em S\u00e3o Paulo, longe de sua terra natal, Andrea cria estrat\u00e9gias para fortalecer o v\u00ednculo cultural dentro de casa, falando espanhol e preparando pratos t\u00edpicos. Certa vez, foi acusada de aculturar o filho, como se fosse necess\u00e1rio suprimir suas origens em nome de uma suposta integra\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cH\u00e1 uma cobran\u00e7a da sociedade para voc\u00ea tirar tudo aquilo que te faz diferente para se adaptar, como se adapta\u00e7\u00e3o fosse homogeneizar. Voc\u00ea fica no dilema de querer que seu filho seja parte da sociedade e, ao mesmo tempo, de ver que aquilo que voc\u00ea traz n\u00e3o \u00e9 aceito\u201d, relata.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A filha de Jobana, Wayra, se identifica como boliviana ou brasileira, dependendo do seu interlocutor. \u201cEla tem como que um radar\u201d, conta Jobana. Cabelos escuros como os da m\u00e3e, a menina gosta de usar tran\u00e7as, falar espanhol e compartilhar conhecimentos sobre os aspectos da cultura boliviana. Na escola, por\u00e9m, o que \u00e9 motivo de orgulho se torna objeto de humilha\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO que fazem n\u00e3o \u00e9 bullying, \u00e9 xenofobia e isso tem que ficar claro para as crian\u00e7as, professores e pais. N\u00e3o \u00e9 por conta de uma caracter\u00edstica, mas pelo fato de ser migrante. Discriminam tamb\u00e9m pela quest\u00e3o racial. O racismo, a xenofobia e a discrimina\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas temas que precisam ser trabalhados fortemente nas escolas. Isso serviria n\u00e3o s\u00f3 para as minorias, mas para todos, porque quando melhora para elas, melhora para todo mundo\u201d, defende Jobana.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><b>A escola brasileira diante da diversidade<\/b><\/p>\n<p>Reconhecer e valorizar as m\u00faltiplas identidades e culturas existentes em sala de aula &#8211; e fora dela &#8211; representa um desafio hist\u00f3rico para a escola brasileira. Em S\u00e3o Paulo, soma-se \u00e0s quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais j\u00e1 enfrentadas no pa\u00eds o fato de que h\u00e1 4.381 estudantes migrantes matriculados na rede p\u00fablica de educa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o crian\u00e7as e adolescentes que vivenciam e compartilham h\u00e1bitos, saberes, costumes e caracter\u00edsticas dos seus pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>Esse n\u00famero, entretanto, n\u00e3o contempla os estudantes migrantes de segunda gera\u00e7\u00e3o, ou seja, aqueles nascidos em territ\u00f3rio brasileiro, mas oriundos de fam\u00edlias de outras nacionalidades. Invisibilizados no ato de matr\u00edcula, esses estudantes lidam com outras dificuldades quando chegam \u00e0 escola, como a l\u00edngua falada, a falta de um Projeto Pol\u00edtico Pedag\u00f3gico (PPP) que os acolha e, em alguns casos, a xenofobia.<\/p>\n<p>\u201cFalo espanhol em casa e tem v\u00e1rias coisas que s\u00e3o diferentes. Como essa cultura \u00e9 trazida para a escola? Meu filho Ulisses tem RG brasileiro e tudo que est\u00e1 por tr\u00e1s \u00e9 apagado\u201d, critica Andrea.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma realidade com a qual a professora Adriana de Carvalho se deparou durante sua atua\u00e7\u00e3o como coordenadora da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o para imigrantes do n\u00facleo \u00e9tnico e racial da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o. Adriana desenvolve uma tese de doutorado sobre acolhimento \u00e0s crian\u00e7as imigrantes na rede p\u00fablica de S\u00e3o Paulo e aponta a necessidade de dar visibilidade para essa inf\u00e2ncia.<\/p>\n<div class=\"box\">\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A ag\u00eancia de not\u00edcias Bol\u00edvia Cultural foi lan\u00e7ada em 2008 para divulgar a diversidade cultural da terra natal de Antonio Andrade, que nasceu em Sucre, a quinta maior cidade da Bol\u00edvia. O Bol\u00edvia Cultural trabalha para fortalecer as identidades bolivianas ante a vis\u00e3o estereotipada difundida pela m\u00eddia tradicional.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cMuitas vezes, a crian\u00e7a est\u00e1 na sala de aula, mas n\u00e3o \u00e9 percebida, vista pelos professores e Poder P\u00fablico. Se a gente conseguisse romper com isso j\u00e1 seria meio caminho andado, porque essa crian\u00e7a seria considerada como protagonista do processo de ensino e aprendizagem, entendida como um sujeito dentro da escola e n\u00e3o apenas como um n\u00famero\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Brasil h\u00e1 mais de vinte anos, Ant\u00f4nio Andrade v\u00ea a cultura como caminho para essa valoriza\u00e7\u00e3o. Fundador dos portais de not\u00edcias <\/span><b>Bol\u00edvia Cultural <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">e <\/span><b>Planeta Am\u00e9rica Latina<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, ele identificou nas diversas palestras realizadas em escolas da rede p\u00fablica de S\u00e3o Paulo a aus\u00eancia do tema na educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. \u201cNa Bol\u00edvia, a Am\u00e9rica Latina faz parte da nossa educa\u00e7\u00e3o, mas o Brasil em sua metodologia de ensino, tem pouco cuidado com esse conhecimento, tanto que o brasileiro n\u00e3o se considera latino-americano\u201d, aponta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para superar essa barreira, Ant\u00f4nio dialoga com as crian\u00e7as a partir de exemplos pr\u00f3ximos, como as m\u00fasicas, dan\u00e7as e o futebol, que muitas vezes carregam as mesmas influ\u00eancias. Ant\u00f4nio recorda que, certa vez, ao visitar uma escola da rede p\u00fablica, soube pela professora que praticamente todos os alunos da classe ficaram de cara fechada quando souberam que haveria uma palestra sobre Bol\u00edvia, mas ap\u00f3s a aula, todos bateram palmas com entusiasmo e at\u00e9 pediram para que o encontro durasse mais tempo. \u201cQuando a crian\u00e7a brasileira se reconhece como latino-americana, ela se sente muito mais feliz e integrada\u201d, destaca Antonio. <\/span><\/p>\n<p>Para que isso aconte\u00e7a, no entanto, \u00e9 preciso promover a forma\u00e7\u00e3o dos professores e funcion\u00e1rios, baixar os muros e aproximar a comunidade, mapear a presen\u00e7a de alunos imigrantes e filhos de imigrantes e ter um curr\u00edculo e projeto pol\u00edtico pedag\u00f3gico constru\u00eddo numa perspectiva intercultural.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 o que aponta a psic\u00f3loga e diretora da Cidade Escola Aprendiz, Natacha Costa. Para ela, a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade pela escola \u00e9 fundamental para que as crian\u00e7as consigam viver suas inf\u00e2ncias de forma plena.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO importante \u00e9 entender a diversidade como valor, como riqueza. Muitas vezes a diversidade tende a ser considerada como problema, desafio, mas ela n\u00e3o \u00e9. Al\u00e9m de ser a identidade de um lugar, de como as pessoas s\u00e3o e como se relacionam, \u00e9 um valor que pode ser oferecido a qualquer processo social, inclusive, ao educacional.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para tanto, acrescenta Natacha, a escola e os educadores precisam conhecer as especificidades dessas crian\u00e7as e o contexto no qual est\u00e3o inseridas. \u00c9 aqui, segundo ela, que o territ\u00f3rio emerge como um ativo fundamental para a educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO territ\u00f3rio nos informa sobre as identidades, quest\u00f5es e sobre os interesses das crian\u00e7as. \u00c9 fundamental para a educa\u00e7\u00e3o considerar quem aprende como sujeito, por isso, \u00e9 preciso compreender que eles vivem em um lugar, imersos em uma s\u00e9rie de din\u00e2micas que precisam ser conhecidas para que haja um processo de ensino aprendizagem significativo\u201d, defende.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pb7Kf_DMFyA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-119 aligncenter\" src=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/video2.png\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Educa\u00e7\u00e3o como direito das crian\u00e7as imigrantes<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A intensifica\u00e7\u00e3o dos fluxos migrat\u00f3rios no final do s\u00e9culo XIX e nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX n\u00e3o foi acompanhada da garantia do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, conforme narra a pesquisa \u201cO acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o escolar de imigrantes em S\u00e3o Paulo\u201d, realizada pela mestre em Direito, Tatiana Waldman. Naquele momento, o Brasil tinha um sistema escolar deficit\u00e1rio e a taxa de analfabetismo no estado de S\u00e3o Paulo chegou a 75% em 1920, com apenas 28% da popula\u00e7\u00e3o em idade escolar matriculada na rede p\u00fablica de ensino.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse contexto, os imigrantes tiveram consentimento e est\u00edmulo do Estado brasileiro para estabelecer as pr\u00f3prias escolas no pa\u00eds, denominadas escolas de imigra\u00e7\u00e3o ou escolas \u00e9tnicas. Essa n\u00e3o era uma particularidade de imigrantes europeus ou asi\u00e1ticos, uma vez que os africanos tamb\u00e9m conservavam escolas espec\u00edficas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m das falhas no sistema de ensino, tamb\u00e9m pesava para a cria\u00e7\u00e3o das escolas o ambiente de conflito entre algumas nacionalidades e a hostilidade dos paulistas, que se manifestavam contr\u00e1rios \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o em publica\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse cen\u00e1rio come\u00e7a a mudar ap\u00f3s a 1\u00aa Guerra Mundial, com o in\u00edcio da pol\u00edtica de nacionaliza\u00e7\u00e3o e limita\u00e7\u00e3o das escolas de imigra\u00e7\u00e3o. Em S\u00e3o Paulo, o sistema p\u00fablico de ensino tenta abranger os imigrantes, com escolas p\u00fablicas pr\u00f3ximas \u00e0s \u00e9tnicas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por volta de 1938, a nacionaliza\u00e7\u00e3o se torna compuls\u00f3ria, com decretos que extinguem ou transformam em p\u00fablicas as escolas de imigra\u00e7\u00e3o e tornam obrigat\u00f3rio o uso do portugu\u00eas em todos os materiais de ensino, al\u00e9m de incluir hist\u00f3ria e geografia brasileira no curr\u00edculo e proibir o ensino de l\u00edngua estrangeira aos menores de 14 anos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Surge ent\u00e3o a preocupa\u00e7\u00e3o de inserir os imigrantes no sistema p\u00fablico de ensino, por\u00e9m sob a imposi\u00e7\u00e3o do idioma nacional e apagamento deliberado da diversidade cultural. Em 1980, a situa\u00e7\u00e3o se agrava com a promulga\u00e7\u00e3o do Estatuto do Estrangeiro, que estabelece que a matr\u00edcula escolar s\u00f3 poderia ser feita se o imigrante estivesse devidamente registrado e possu\u00edsse o documento de identidade do Brasil. Quem n\u00e3o atendesse a tal norma teria a matr\u00edcula cancelada e seria suspenso do curso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA escola \u00e9 usada como meio de fiscaliza\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia de imigrantes no Brasil e como forma de desencorajar o movimento imigrat\u00f3rio indocumentado ao pa\u00eds e excluir a presen\u00e7a de tais imigrantes no sistema de ensino brasileiro\u201d, analisa Tatiana Waldman no estudo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A legisla\u00e7\u00e3o estava na contram\u00e3o da garantia da educa\u00e7\u00e3o como direito universal estabelecido pela Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos de 1948. Hoje, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA) de 1990, a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o (LDB) de 1996, al\u00e9m dos tratados internacionais ratificados pelo Brasil, asseguram o direito humano \u00e0 educa\u00e7\u00e3o escolar para todas as pessoas residentes no pa\u00eds, independentemente da regulariza\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/sao-paulo\/educacao-integral\/linha-do-tempo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-476\" src=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/linha-do-tempo-final.png\" alt=\"\" width=\"671\" height=\"127\" srcset=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/linha-do-tempo-final.png 671w, https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/linha-do-tempo-final-300x57.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 671px) 100vw, 671px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar desses epis\u00f3dios, coube \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, como a Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz e a Pastoral do Migrante, tensionar o poder p\u00fablico para que esse direito fosse garantido e superar normas inconstitucionais criadas a partir dos dispositivos do Estatuto do Estrangeiro. Foi o caso da Resolu\u00e7\u00e3o 09 de 1990 da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo, publicada durante a gest\u00e3o Fleury, cuja determina\u00e7\u00e3o estabelecia que a matr\u00edcula s\u00f3 seria efetivada mediante apresenta\u00e7\u00e3o de documento de identidade, impactando diretamente a vida de centenas de crian\u00e7as migrantes que tiveram o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o negado, como relata a doutora em sociologia, Patr\u00edcia Tavares de Freitas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 muitos relatos dessa \u00e9poca n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 matr\u00edcula na escola, mas de forma geral a Pol\u00edcia Federal atuava de forma bastante truculenta em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da indocumenta\u00e7\u00e3o e da presen\u00e7a dos imigrantes latino-americanos na cidade e com essa Resolu\u00e7\u00e3o ficou ainda pior\u201d, destaca. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Patr\u00edcia pontua que a Resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi seguida de imediato, mas com o aumento da fiscaliza\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as migrantes passaram a ser barradas na rede estadual de ensino, o que mobilizou as institui\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 causa migrat\u00f3ria, que se articularam com os movimentos de educa\u00e7\u00e3o e direitos humanos. A Pastoral do Migrante, por exemplo, formulou um dossi\u00ea compilando relatos de migrantes afetados pela restri\u00e7\u00e3o imposta pelo governo e Dom Evaristo Arns, da Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz, foi pessoalmente pedir a revoga\u00e7\u00e3o da norma ao secret\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o da \u00e9poca. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Resolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi revogada em 1995, pela Secretaria de Justi\u00e7a e Direito \u00e0 Cidadania da gest\u00e3o M\u00e1rio Covas, mas ainda hoje h\u00e1 relatos, embora pouco frequentes, de funcion\u00e1rios que, por desconhecimento, negam a matr\u00edcula para migrantes sem documenta\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>Embora a quest\u00e3o da documenta\u00e7\u00e3o tenha deixado de impedir o acesso ao Ensino Fundamental, h\u00e1 uma s\u00e9rie de quest\u00f5es enfrentadas por quem pretende se matricular em outros n\u00edveis de ensino. Rocio narra que uma estudante migrante tentou fazer a matr\u00edcula em v\u00e1rias escolas de Ensino M\u00e9dio apresentando a credencial com as notas obtidas no primeiro ano cursado na Bol\u00edvia, mas todas se recusaram. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, no trajeto entre uma escola e outra, a jovem perdeu o documento que atestava os anos de estudo at\u00e9 ali obtidos &#8211; situa\u00e7\u00e3o comum a quem atravessa um processo migrat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cFalo muito sobre a necessidade de sensibiliza\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 do outro lado. As pessoas do atendimento v\u00e3o mudar, mas essa pessoa que perdeu a <i>libreta<\/i> talvez nunca mais estude e voc\u00ea ser\u00e1 respons\u00e1vel pela mudan\u00e7a na vida dela\u201d, frisa.<\/p>\n<p>Hoje funcion\u00e1ria concursada no Instituto Federal de S\u00e3o Paulo, Rocio reconhece o impacto de um atendimento comprometido com a garantia dos direitos humanos na vida de um migrante, j\u00e1 que sua vida foi transformada por um funcion\u00e1rio da antiga escola em que estudava. Rocio\u00a0havia interrompido os estudos na juventude por conta da gravidez da filha e, anos depois, ao ver a placa anunciando aulas do supletivo Educa\u00e7\u00e3o para Jovens e Adultos (EJA), foi \u00e0 escola e conseguiu ser matriculada no ato.<\/p>\n<p>\u201cNunca vou esquecer disso: mudou minha vida\u201d, conta emocionada. \u201cEu n\u00e3o tinha nem o Ensino M\u00e9dio e poderia ter continuado assim. Minha filha n\u00e3o teria as condi\u00e7\u00f5es que tem hoje se eu n\u00e3o tivesse estudado. Dizer que sou funcion\u00e1ria p\u00fablica e demonstrar isso para ela me deixa muito orgulhosa. Para mim, educa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante. Imagina se voc\u00ea vai l\u00e1 e a pessoa te fala n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Hoje, Rocio coordena o coletivo S\u00ed, Yo Puedo, por meio do qual percebe que ainda h\u00e1 muito trabalho para que as pol\u00edticas educacionais tenham a interculturalidade como diretriz, promovendo a forma\u00e7\u00e3o de todos os profissionais da escola. \u201cVejo muitos trabalhos bons em algumas escolas e em outras n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o. A escola n\u00e3o se comunica com o pai, que n\u00e3o se aproxima da escola. Deveria haver forma\u00e7\u00e3o de professores e funcion\u00e1rios em qualquer escola que atende imigrantes.\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Construir uma educa\u00e7\u00e3o intercultural<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Relatora especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Direito \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o entre 1998 e 2004, Katarina Tomasevski prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de um marco internacional que mostrasse quais dimens\u00f5es devem ser observadas para que o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a: disponibilidade, que haja institui\u00e7\u00f5es e programas de ensino suficientes; acessibilidade, sem obst\u00e1culos econ\u00f4micos, legais ou discriminat\u00f3rios; aceitabilidade, com padr\u00f5es m\u00ednimos de qualidade; e adaptabilidade, que seja flex\u00edvel para olhar para a diversidade dos alunos. A estrutura foi adotada pelo Comit\u00ea de Direitos Econ\u00f4micos Sociais e Culturais da ONU.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Doutoranda e mestre em sociologia da educa\u00e7\u00e3o, Giovanna Mod\u00e9 ressalta que tais dimens\u00f5es mostram que \u00e9 preciso pensar al\u00e9m do acesso para verificar se o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de fato se realiza. \u201cA realiza\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as imigrantes evidentemente tem um custo, que deve ser honrado pelo Estado, porque faz parte da realiza\u00e7\u00e3o do direito. Muitas vezes voc\u00ea precisa sim contratar profissionais extras para dar conta disso e assim tem que ser. Essa quest\u00e3o n\u00e3o dever ser vista como assess\u00f3ria, porque vai garantir o direito para essa crian\u00e7a.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dos aspectos que deve ser contemplado para que a escola trabalhe numa perspectiva intercultural \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o da comunidade. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Com a maior valoriza\u00e7\u00e3o das culturas, da diversidade dentro do espa\u00e7o escolar e maior ader\u00eancia dos movimentos que trabalham com a tem\u00e1tica, voc\u00ea come\u00e7a a entrar em uma esfera de mudan\u00e7a simb\u00f3lica e cultural e desconstru\u00e7\u00e3o de imagens muitas vezes hegem\u00f4nicas dessas popula\u00e7\u00f5es. As barreiras \u00e0 conviv\u00eancia precisam ser desconstru\u00eddas, porque a escola p\u00fablica est\u00e1 a\u00ed para gerar esse encontro\u201d, afirma Giovana. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No mesmo sentido, Adriana lembra que a escola \u00e9 em muitos espa\u00e7os o \u00fanico local de participa\u00e7\u00e3o e protagonismo e, por isso, deve baixar os muros e dialogar com o territ\u00f3rio. \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A escola \u00e9 um dos polos din\u00e2micos de participa\u00e7\u00e3o social e precisa se colocar como vanguarda nesse processo, abrir as portas aos finais de semana para receber a comunidade e apresentar o que tem produzido em termos de cultura e conhecimento. Se a escola fizer isso, ela j\u00e1 estar\u00e1 contribuindo bastante, para al\u00e9m das atribui\u00e7\u00f5es que j\u00e1 fazem parte da legisla\u00e7\u00e3o educacional.\u201d<\/span><\/p>\n<p>Coordenador do Centro de Direitos Humanos e Cidadania (CDHIC), Paulo Iles esteve \u00e0 frente da Coordena\u00e7\u00e3o de Pol\u00edticas para Migrantes (CPMig), entre maio de 2013 e mar\u00e7o de 2016, e v\u00ea na gest\u00e3o democr\u00e1tica da educa\u00e7\u00e3o uma oportunidade para que a participa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias migrantes se amplie.<\/p>\n<p>\u201cO grande desafio \u00e9 enfrentar a grade curricular, criando mecanismos para que a cultura dos imigrantes possa ser valorizada na sala de aula. Precisamos potencializar esses espa\u00e7os abertos para a comunidade. A escola n\u00e3o pode ser isolada da comunidade. \u00c9 preciso abrir espa\u00e7o de di\u00e1logo em que as fam\u00edlias dos migrantes possam ter essa conviv\u00eancia\u201d, defende.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/sao-paulo\/educacao-integral\/banco-de-praticas\/\"><strong>ACESSE AQUI O BANCO DE PR\u00c1TICAS PEDAG\u00d3GICAS DE ESCOLAS DE S\u00c3O PAULO PARA PROMO\u00c7\u00c3O DA INTERCULTURALIDADE<\/strong><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora ainda sejam poucas as escolas que desenvolvem projetos interculturais, \u00e9 importante que tais experi\u00eancias sejam compartilhadas e visibilizadas como modelo para novos projetos numa perspectiva anti-xenof\u00f3bica e antirracista. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, mais do que replicar, \u00e9 preciso incidir sobre o poder p\u00fablico ocupando todos os espa\u00e7os de discuss\u00e3o em que as pol\u00edticas s\u00e3o constru\u00eddas. \u201cN\u00e3o podemos perder de vista que ter uma sociedade civil fortalecida com imigrantes incidindo no poder p\u00fablico local \u00e9 a frente mais importante a ser fortalecida nesse momento, porque tudo que vier ser\u00e1 em resposta a isso\u201d, frisa Giovanna. Dessa maneira, ser\u00e1 poss\u00edvel construir uma educa\u00e7\u00e3o intercultural, que rompa os muros e que ensine a todos que a diversidade \u00e9 a nossa maior riqueza.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 no rosto da crian\u00e7a, percebe a boliviana Jobana Moya, que vive no Brasil h\u00e1 10 anos. A filha Wayra, 7 anos, estuda em uma escola da rede municipal de S\u00e3o Paulo. Portugu\u00eas na ponta da l\u00edngua e pele mais clara do que a da m\u00e3e, que \u00e9 neta de qu\u00e9chuas, Wayra tem facilidade para &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/infancias-e-migracao-regional-em-sao-paulo\/educacao-integral\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Migrantes e o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"parent":27,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-31","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/31","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/31\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":507,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/31\/revisions\/507"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/27"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}