{"id":287,"date":"2017-12-16T22:54:47","date_gmt":"2017-12-17T00:54:47","guid":{"rendered":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/?page_id=287"},"modified":"2018-12-03T18:38:59","modified_gmt":"2018-12-03T20:38:59","slug":"territorio","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/infancias-e-migracao-regional-em-sao-paulo\/territorio\/","title":{"rendered":"Migrantes e o direito \u00e0 cidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde que aprendeu a andar, Ulisses caminha ao lado da m\u00e3e Andrea pelas ruas de S\u00e3o Paulo. Certa vez, uma motorista buzinou ininterruptamente quando viu o garoto correndo pela cal\u00e7ada e questionou sobre o risco dele avan\u00e7ar para a rua e ser atropelado. Pacientemente, Andrea respondeu que o menino pararia na esquina, algo natural para uma crian\u00e7a que j\u00e1 conhecia a din\u00e2mica da cidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O epis\u00f3dio revela que \u00e9 poss\u00edvel criar novas formas de rela\u00e7\u00e3o entre as crian\u00e7as e o espa\u00e7o urbano, superando o cen\u00e1rio de afastamento das ruas criado nas \u00faltimas d\u00e9cadas. \u201cAs pessoas compraram o discurso da seguran\u00e7a chegando ao ponto das crian\u00e7as n\u00e3o mais andarem na rua. Mas se a crian\u00e7a n\u00e3o conhece os elementos mais simples do cotidiano, n\u00e3o vai saber brincar livremente. \u00c9 preciso que a sociedade permita que as crian\u00e7as participem dos espa\u00e7os\u201d, reflete a imigrante chilena<\/span><b>.<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Aprender na cidade<\/strong>, reconhecendo o territ\u00f3rio como espa\u00e7o onde a aprendizagem ocorre; <strong>aprender com a cidade<\/strong>, ou seja, a partir de seus signos e din\u00e2micas pr\u00f3prias; e <strong>aprender a cidade<\/strong>, compreendendo o espa\u00e7o urbano como pass\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, s\u00e3o princ\u00edpios que o professor da Universidade de Barcelona, Jaume Trilla Bernet, apresenta como norteadores de uma <a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/\">Cidade Educadora<\/a>. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O movimento, fundado em Barcelona na d\u00e9cada de 90, re\u00fane hoje mais de 400 cidades do mundo que reconhecem, promovem e exercem um papel educador na vida de seus habitantes . Organizados em torno da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Cidades Educadoras (AICE), os munic\u00edpios se comprometem a reorganizar suas pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es sob os princ\u00edpios estabelecidos pela <a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/carta-cidades-educadoras-barcelona.pdf\">Carta das Cidades Educadoras.<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para a diretora da Cidade Escola Aprendiz, Natacha Costa, promover uma Cidade Educadora demanda um pacto social no qual as cidades se responsabilizam pelos espa\u00e7os, pol\u00edticas e atitudes dos cidad\u00e3os para garantir o desenvolvimento de todos e todas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cUma cidade inclusiva e criativa est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 possibilidade das crian\u00e7as viverem em condi\u00e7\u00f5es adequadas para o seu desenvolvimento. Para materializar essa concep\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso desenvolver projetos territ\u00f3rio por territ\u00f3rio, bairro a bairro efetivando esse pacto e viabilizando que S\u00e3o Paulo se converta aos poucos em uma Cidade Educadora\u201d, destaca. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para a arquiteta e urbanista espanhola Irene Quint\u00e1ns, criadora da Rede Ocara e consultora do projeto Urban 95, da Funda\u00e7\u00e3o Bernard Van Leer, n\u00e3o ter contato com a cidade torna o espa\u00e7o urbano ainda mais inseguro. Al\u00e9m disso, o desenho urbano tamb\u00e9m impacta na percep\u00e7\u00e3o sobre o territ\u00f3rio. Lugares escuros e com muros altos, por exemplo, despertam a sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a, que nem sempre \u00e9 real. \u201cDe fato h\u00e1 estudos que fazem mapas comparativos entre a percep\u00e7\u00e3o de medo com a criminalidade do lugar e nem sempre coincidem. Muitas vezes as pessoas acham que o lugar \u00e9 muito perigoso, mas n\u00e3o acontece nada ali.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m da ilumina\u00e7\u00e3o, outro aspecto importante \u00e9 o uso misto dos espa\u00e7os, mesclando resid\u00eancias, escrit\u00f3rios e centros comerciais, garantindo o fluxo de pessoas ao longo do dia e a ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os p\u00fablicos. Isto porque caminhar pelas ruas e usar pra\u00e7as e parques para atividades l\u00fadicas s\u00e3o formas de valorizar o conv\u00edvio.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ge7FbA8nPvc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-119 aligncenter\" src=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/video3.png\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<p><b>O brincar na cidade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Criadora e coordenadora do Mapa da Infa\u0302ncia Brasileira e do NEPSID (Nu\u0301cleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infa\u0302ncia e Desenvolvimento), que impulsiona e mapeia iniciativas e forma empreendedores na a\u0301rea, a antrop\u00f3loga e pedagoga Adriana Friedmann observa que, nos \u00faltimos 25 anos, in\u00fameros projetos da sociedade civil organizada t\u00eam modificado a vida das crian\u00e7as na cidade, por\u00e9m muitas iniciativas terminam prematuramente por falta de apoio e por n\u00e3o serem autossustent\u00e1veis. Al\u00e9m dessas a\u00e7\u00f5es, a especialista aponta o papel de grupos de vizinhan\u00e7as na atua\u00e7\u00e3o para melhorar o territ\u00f3rio e oferecer espa\u00e7os saud\u00e1veis para a conviv\u00eancia da cidadania. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAs crian\u00e7as, \u00e9 claro, tamb\u00e9m fazem parte destes grupos. Alguns t\u00eam se reunido para revitalizar pra\u00e7as e parques, limpar, pintar, plantar, organizar piqueniques, shows, oficinas. A cidade tem in\u00fameros atores, muitas vezes \u2018invis\u00edveis\u2019 ou que n\u00e3o aparecem, mas que fazem enorme diferen\u00e7a na qualidade de vida das crian\u00e7as que ali moram.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Adriana refor\u00e7a que contemplar <strong>o direito ao brincar no territ\u00f3rio urbano<\/strong> passa pela compreens\u00e3o de que o desenvolvimento de atividades l\u00fadicas \u00e9 essencial para humanizar as rela\u00e7\u00f5es entre crian\u00e7as, jovens, adultos de todas as idades e tornar a vida comunit\u00e1ria, a conviv\u00eancia e o lazer mais saud\u00e1vel para todos. \u201c\u00c9 uma possibilidade de resgate e valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular e de integra\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os de diversas regi\u00f5es e nacionalidades.\u00a0As crian\u00e7as t\u00eam absoluta necessidade e direito de viverem suas inf\u00e2ncias de forma plena e digna.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As pol\u00edticas p\u00fablicas devem garantir esse direito, proporcionando atividades como ruas de lazer, feiras multiculturais, entre outras a\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de valorizar e divulgar as atividades j\u00e1 existentes, mas que s\u00e3o pouco conhecidas ou desconhecidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Irene Quint\u00e1s refor\u00e7a que essas atividades que promovem o sentimento de pertencimento em rela\u00e7\u00e3o ao territ\u00f3rio s\u00e3o ainda mais importantes para as crian\u00e7as imigrantes e migrantes, uma vez que ainda n\u00e3o t\u00eam <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">v\u00ednculo emocional positivo com o territ\u00f3rio e isso precisa ser constru\u00eddo. \u201cEst\u00e1 claro que se elas n\u00e3o usam o territ\u00f3rio, n\u00e3o v\u00e3o poder construir esse v\u00ednculo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Consultor do Marco Legal da Primeira Inf\u00e2ncia e um dos defensores da inclus\u00e3o do direito das crian\u00e7as na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, o pedagogo e fil\u00f3sofo Vital Didonet enfatiza que a cidade precisa olhar aquilo que recebe das crian\u00e7as e, ao mesmo \u00a0tempo, refletir sobre o que oferece a elas. \u201c\u00c9 importante que a gente pense a cidade tamb\u00e9m olhando para esse cidad\u00e3o e o que ele precisa nesse espa\u00e7o para exercer a sua cidadania, aprender nele, se relacionar com os outros e crescer como uma pessoa integrada ao espa\u00e7o urbano desde o in\u00edcio\u201d, analisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para que isso ocorra, Didonet aponta como fundamental que o planejamento urbano e o desenho da cidade, tanto na organiza\u00e7\u00e3o quanto na cria\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os, contemplem a presen\u00e7a da crian\u00e7a. \u201cTemos que ter espa\u00e7os para ver a crian\u00e7a. Ela tem que ser vis\u00edvel e os beb\u00eas tamb\u00e9m, para que a gente perceba que eles est\u00e3o existindo no meio de n\u00f3s.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Irene Quint\u00e1s ressalta que uma forma de avaliar a qualidade das pol\u00edticas p\u00fablicas e interven\u00e7\u00f5es municipais \u00e9 justamente observar se atendem \u00e0 inf\u00e2ncia. \u00a0\u201cA crian\u00e7a \u00e9 o cidad\u00e3o mais vulner\u00e1vel na cidade, por n\u00e3o ter autonomia. Sem incluir suas necessidades, n\u00e3o se atende toda a popula\u00e7\u00e3o\u201d, pontua. Uma forma de mensurar essa dimens\u00e3o \u00e9 intervir no trajeto que a crian\u00e7a faz entre a sua casa e a escola ou outro equipamento p\u00fablico. \u201c\u00c9 muito importante pensar nos espa\u00e7os da cidade que temos acesso no dia a dia, na proximidade das \u00e1reas de lazer e na facilidade de se chegar l\u00e1. Se voc\u00ea s\u00f3 chega de carro, \u00e9 um espa\u00e7o excludente.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O mesmo argumento \u00e9 defendido pelo pensador, pedagogo e desenhista italiano Francesco Tonucci, criador da iniciativa \u201cCidade das Crian\u00e7as\u201d, que aposta na transforma\u00e7\u00e3o das cidades a partir do olhar das crian\u00e7as que nela habitam. Tonucci frisa que a escuta efetiva da crian\u00e7a deve servir para gerar uma mudan\u00e7a de paradigma, uma invers\u00e3o de prioridades capaz de reverter o planejamento masculino de cidade. \u201cEu n\u00e3o quero uma cidade infantil, uma cidade pequena. N\u00e3o quero uma cidade montessoriana. Quero uma cidade para todos. E para estar seguro de que n\u00e3o esquecerei ningu\u00e9m, escolho o mais novo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><b>Escutar as crian\u00e7as, refazer as cidades<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Escutar as crian\u00e7as e planejar a cidade a partir da \u00f3tica delas contribui para desnaturalizar os problemas urbanos. De acordo com Adriana Friedmann, \u201cas crian\u00e7as t\u00eam muito a nos mostrar sobre os territ\u00f3rios onde moram, sobre o que enxergam, o que percebem, o que cheiram e escutam. Elas percebem coisas que os adultos n\u00e3o percebem.&#8221;\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O programa S\u00e3o Paulo Carinhosa, implementado na gest\u00e3o de Fernando Haddad, \u00e9 um exemplo de pol\u00edtica p\u00fablica para o desenvolvimento integral da primeira inf\u00e2ncia, especialmente aquelas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social. Gestora do programa, Ana Estela Haddad tamb\u00e9m fala sobre a import\u00e2ncia da escuta das crian\u00e7as, uma experi\u00eancia que o S\u00e3o Paulo Carinhosa vivenciou no territ\u00f3rio do Glic\u00e9rio, bairro da regi\u00e3o central da cidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao planejar uma pra\u00e7a com as crian\u00e7as, al\u00e9m de pensar na trajet\u00f3ria segura at\u00e9 o local e num espa\u00e7o para brincar, tamb\u00e9m criaram um espa\u00e7o de conviv\u00eancia para os pais e uma forma de garantir que os moradores de rua fossem inclu\u00eddos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cUma das meninas verbalizou que eles poderiam ser os monitores da pra\u00e7a. Quando a gente pensa o planejamento urbano sob o olhar, a perspectiva da crian\u00e7a, isso tem m\u00faltiplos benef\u00edcios. O primeiro \u00e9 esse novo olhar, que como adulto muitas vezes deixamos de ter, que \u00e9 inclusivo, amplo e criativo. A segunda quest\u00e3o \u00e9 que se o planejamento urbano for pensado a partir do ponto de vista de uma crian\u00e7a, \u00e9 certeza que ele ser\u00e1 bom e acolhedor para todos\u201d, explica Ana Estela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra experi\u00eancia destacada por Ana Estela foi a participa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as refugiadas numa viradinha cultural promovida na regi\u00e3o. As crian\u00e7as s\u00edrias, chegadas h\u00e1 pouco tempo de regi\u00f5es em conflito, puderam vivenciar novamente o acolhimento e as intera\u00e7\u00f5es possibilitadas pelo territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trabalhar o acolhimento neste caso tamb\u00e9m implica olhar para a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e desenvolver a\u00e7\u00f5es para garantir o acesso a direitos b\u00e1sicos, como vacina\u00e7\u00e3o, cadastro no Sistema \u00danico de Sa\u00fade, emiss\u00e3o da carteira de trabalho e o ensino do portugu\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse olhar intersetorial foi um dos grandes avan\u00e7os implementados pelo programa, que atuou de forma integrada com 14 secretarias do munic\u00edpio, entre elas Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade, Esporte, Direitos Humanos, Cultura, Meio Ambiente e Assist\u00eancia Social, o que permitiu que a quest\u00e3o da inf\u00e2ncia n\u00e3o fosse pensada de forma fragmentada e desconectada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA crian\u00e7a n\u00e3o vai estar no espa\u00e7o da cidade de maneira isolada. Em geral, \u00e9 preciso pensar na quest\u00e3o do n\u00facleo familiar. Tem que haver essa conex\u00e3o, pensar a crian\u00e7a e coloc\u00e1-la numa pol\u00edtica maior e integrada, como merecem os cidad\u00e3os como um todo\u201d, frisa Ana Estela.<\/span><\/p>\n<p>Apenas a\u00e7\u00f5es intersetoriais e integradas d\u00e3o conta de fazer o acolhimento humanizado dessas crian\u00e7as e promover a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. &#8220;Para isso, voc\u00ea precisa ter pol\u00edticas p\u00fablicas acess\u00edveis para a crian\u00e7a e sua fam\u00edlia, que muitas vezes est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, sem outros direitos sociais\u201d, defende a vereadora Juliana, autora do PL 585\/2016.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O texto do PL 585 prev\u00ea a cria\u00e7\u00e3o de um conselho gestor, que trabalharia no sentido de reunir as secretarias e pensar em estrat\u00e9gias de articula\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es, envolvendo tamb\u00e9m os conselhos para garantir a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil no processo. <\/span><\/p>\n<p><strong>O migrante e a cidade<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar do longo hist\u00f3rico da imigra\u00e7\u00e3o e migra\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo, s\u00f3 depois de muita mobiliza\u00e7\u00e3o e luta das comunidades vieram os primeiros avan\u00e7os. Rocio Quispe chegou a S\u00e3o Paulo h\u00e1 mais de vinte anos e nota como a vida de imigrante mudou. Da sua inf\u00e2ncia, ele lembra, por exemplo, que a recomenda\u00e7\u00e3o era falar espanhol apenas dentro de casa. \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Se algu\u00e9m escutasse, nos olhava como alien\u00edgenas\u201d, recorda. Anos depois, notou o inverso: apenas o portugu\u00eas era falado pelos adolescentes imigrantes e o espanhol pouco a pouco era esquecido, assim como a identidade. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEra comum ver uma m\u00e3e que n\u00e3o falava o portugu\u00eas e a filha que n\u00e3o sabia o espanhol. Isso come\u00e7ou a mudar depois que vieram v\u00e1rios trabalhos para enaltecer a cultura dos imigrantes. A Kantuta foi criada e os adolescentes perceberam que era importante enaltecer os dois lados. \u00c9 legal ser brasileira e tamb\u00e9m boliviana. Digo para minha filha que quero que ela fale pelo menos tr\u00eas idiomas\u201d, conta Rocio. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pra\u00e7a Kantuta leva o nome de uma flor da regi\u00e3o do altiplano que tem as cores da bandeira boliviana. Inaugurada em 2002 no bairro do Pari, em S\u00e3o Paulo, a pra\u00e7a se tornou ponto de encontro para as fam\u00edlias latinas. Foi na Kantuta que a irm\u00e3 de Rocio, Ver\u00f4nica Yujra, criou o projeto S\u00ed Yo Puedo com o intuito de ajudar imigrantes no aprendizado do portugu\u00eas e na busca por emprego. <\/span><\/p>\n<div class=\"box\">\n<p><b>S\u00ed Yo Puedo<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 um coletivo independente voltado para a \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o popular que come\u00e7ou como uma barraca de atendimento na feira da Kantuta, em 2012. Posteriormente, passou a ministrar aulas de portugu\u00eas para falantes do espanhol e cursos preparat\u00f3rios para o vestibulinho das escolas t\u00e9cnicas e vestibulares das universidades p\u00fablicas, al\u00e9m de tamb\u00e9m oferecer cursos profissionalizantes.<\/span><\/p>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"> Em 2016, o projeto\u00a0S\u00ed Yo Puedo foi contemplado pelo edital do programa VAI \u2013 Valoriza\u00e7\u00e3o de Iniciativas Culturais da prefeitura de S\u00e3o Paulo e produziu o livro \u201cHist\u00f3rias que se cruzam na Kantuta\u201d, resultado de um projeto de hist\u00f3ria oral que resgata mem\u00f3rias de imigrantes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2017, em parceria com o Instituto Federal e a Escola Estadual Frei Paulo Luigi, iniciou o projeto \u201cCultura brasileira para estudantes hispanofalantes\u201d, com crian\u00e7as de oito a 13 anos. Os encontros s\u00e3o realizados aos s\u00e1bados na sede do Instituto no bairro do Pari, com atividades sobre m\u00fasica e literatura brasileira, jogos de palavras, al\u00e9m de visitas a espa\u00e7os p\u00fablicos. \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Nosso objetivo \u00e9 fazer com que vejam a cidade de outra maneira, como espa\u00e7o de oportunidade\u201d, afirma Danielle Yura, jornalista do Instituto Federal de S\u00e3o Paulo e uma das coordenadoras do projeto. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Coordenador do Centro de Direitos Humanos e Cidadania (CDHIC), Paulo Iles tamb\u00e9m destaca a necessidade de trabalhar a\u00a0valoriza\u00e7\u00e3o da interculturalidade.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Para combater a discrimina\u00e7\u00e3o contra crian\u00e7as e adolescentes imigrantes, o CDHIC, em parceria com o Fundo Municipal da Crian\u00e7a e Adolescente, iniciou o projeto <\/span><b>Tendas da Cidadania<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Duas vezes ao m\u00eas nos finais de semana, alternadamente na Escola Estadual Domingos Faustino Sarmiento e na Feira da Kantuta, s\u00e3o desenvolvidas atividades com crian\u00e7as imigrantes e paulistanas, com intuito de valorizar a diversidade cultural e prevenir a xenofobia e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trocas como estas d\u00e3o conta n\u00e3o somente de enaltecer os saberes e direitos migrantes como tamb\u00e9m o conhecimento das crian\u00e7as sobre o espa\u00e7o urbano. &#8220;Entregar para as crian\u00e7as um l\u00e1pis e papel, uma c\u00e2mera ou convid\u00e1-la a \u2018falar\u2019 da cidade que ela v\u00ea por meio de uma brincadeira, uma encena\u00e7\u00e3o, uma m\u00fasica ou qualquer outra forma de narrativa \u00e9 uma possibilidade de revelar-nos os olhares sens\u00edveis e criativos que elas t\u00eam\u201d, finaliza\u00a0Adriana Friedmann.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que aprendeu a andar, Ulisses caminha ao lado da m\u00e3e Andrea pelas ruas de S\u00e3o Paulo. Certa vez, uma motorista buzinou ininterruptamente quando viu o garoto correndo pela cal\u00e7ada e questionou sobre o risco dele avan\u00e7ar para a rua e ser atropelado. Pacientemente, Andrea respondeu que o menino pararia na esquina, algo natural para &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/infancias-e-migracao-regional-em-sao-paulo\/territorio\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Migrantes e o direito \u00e0 cidade&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"parent":27,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-287","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=287"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/287\/revisions\/510"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/27"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/educacaoeterritorio.org.br\/especiais\/infancias-migrantes-em-sao-paulo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}